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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sobre as Belas e suas Belezas...



Qual mulher já não se interrogou em frente ao espelho, na certeza de que ouviria como resposta ser a mais bela entre todas? Talvez, as sensatas e amadas consigo mesmas não. Mas as narcisistas sim! E de narcisistas é que quero falar.
O meu olhar para com as mulheres sempre foi de Pequeno Príncipe. A velha máxima de que só se vê bem com os olhos do coração. Logo, as mulheres por mim eleitas como bonitas não constavam na lista das dez mais da escola. Assim, nunca dei muita atenção àquelas que a todo instante sentem uma necessidade de ouvir: noooossa! Como você é muito bonita; mas você é muito linda; meu Deus... mas que mulher exuberante... Nunca gostei de enaltecer egos narcisistas. Um homem apaixonado por leitura, apaixona-se pelo conteúdo e não pela capa de seus livros.   

Mas o que hoje acontece, é que nossas mulheres (as não amadas de si mesmas) passavam a cada vez mais interiorizar o sentimento da madrasta má da branca de neve, numa busca desenfreada pela beleza. E assim, esquecem-se de que não é no espelho que se encontra a beleza, de que não é no reflexo das águas que nasce o amor por si mesmas. É sim, em si mesmas. Mas dentro de si mesmas. Pois, a maior de todas as belezas é a beleza interior. Beleza esta que, só mesmo as belas de verdade são capazes de revelar a si e ao outro.

Por fim, afirmo e firmo: eu gosto mesmo é das bonitas...

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Um crítico literário vai a um show de forró.



Eis que me entreguei, pela segunda vez, aos apelos de minha senhora e resolvi ir ao show. MPB, Bossa Nova, música clássica? Que nada. Um show de forró.
Logo na entrada, uma primeira lição: a de que se deve esperar certa quantidade de pessoas, já dentro da casa de festa, para se poder entrar. A lógica aqui é que é preciso uma multidão para a festa ser boa, ou para se ser feliz durante a noite. Jeito estranho de ser feliz. O poeta nos diria que a nossa felicidade não pode está condicionada, unicamente, a felicidade do outro.
Entrando, pude logo perceber que as críticas ao modo de divertimento da grande massa operária fazem todo o sentido. Eles querem apenas diversão. Não são seletivos. Quaisquer coisas lhes servem. Diferentemente do literato que só o acima do bom lhe satisfaz. E por falar em coisas, quantas coisas a serem analisadas no bendito show.
O som. Há o som... De uma amplificação tão péssima que de dez palavras cantadas pela banda, apenas uma se podia entender. Mistério que coube a minha senhora revelar-me: “a letra pouco importa. O que empolga mesmo é o barulho”. E por lembrar da banda... É interessante perceber que nesses tipos de shows tem sempre um pré-show com bandas que, na maioria das vezes, cantam as mesmas músicas que serão cantadas pela banda principal (égua, juro que isso eu ainda não consigo entender).
E o show segue. E as pessoas rodopeiam atônitas no salão na personificação de um mesmo personagem: a alegria (embora fugaz e efêmera). A cerveja em excesso faz com que a felicidade chegue antecipada. O vocalista manda os famigerados alôs (lembrei daqueles alôs que se ouvia na Rádio Rural de Santarém). Tudo muito diferente do mundo interior do eu pessoal do crítico literário.
Mas quem disse que o crítico não gostou do que viu, ou ouviu... Prova disso, é que passados alguns dias as imagens da festa vivem em sua mente, e vez ou outra, seus lábios balbuciam “versos” do que seria uma das músicas daquela noite:
“Eu puxo teu cabelo,
Dou na tua cara.
Te chamo de cachorra,
Te dou uma pisa de vara...”  


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Contos: A PUTA



Engana-se quem pensa que ela sentia alguma vergonha do que fazia. Quando indagada sobre o exercício da profissão respondia sem meio termo: puta! Ela não era prostituta (termo mais ameno da profissão) era puta mesmo. Na sua cabeça prostituta era quem atendia a clientes Vips em motéis e ambientes mais requintados da cidade. E ela, só podia oferecer seus serviços a operários, para os quais o corpo do produto não tem muita importância. Era uma puta cujo custo X benefício era de longe o melhor. Puta requenquela que faz atendimento em cabaré sempre cobra mais barato. E nessa relação financeira todos saem ganhando. 

Mas por trás do corpo há o ser mulher. E esta era veterana na profissão. Havia herdado o oficio da mãe. A paternidade era um mistério. Poderia ser qualquer um desde o açougueiro ao aposentado. A aparência era típica de quem cobra não mais que R$ 20,00 pelos serviços: semblante sofrível, cabelos mal escovados, unhas mal feitas, um batom ordinário nos lábios e a vestimenta que só reforçava o que vendia, no caso, o próprio corpo. A instrução escolar faltava-lhe. Só fazia bom uso da língua naquilo que a profissão exige. Era vulgar e desbocada. Qualquer aborrecimento era o suficiente para mandar tomar no... Mas como toda puta velha metia-se a dar conselhos. Talvez o conselho mais importante não lhe foi dado e, por isso, o oficio parecia ser familiar.

Dizem que certo dia ela foi vista na companhia de uma linda jovem, lá pela orla, observando o vai e vem de carros de luxos como se estivesse ensinando todo o fluxo daquele movimento.

sábado, 30 de novembro de 2013

Vocacionados


Amar e deixar-se amar. Talvez a vocação primeira do ser humano. E deixaram-se amar. E foi por isso que até hoje, cerca de seis anos depois, amam-se num amor divinal. Mas de quem estamos falando? Deixem-me apresentá-los. 
O ano é por volta de dois mil e seis. O cenário, um encontro de Ceb no Ginásio do Colégio Dom Amando. O primeiro olhar partiu unicamente dela. Olhar silencioso e particular. A paixão nascia ali. Sim. Mas um amor desse tipo não é vivenciado sozinho. Embora naquele momento seu olhar tenha ficado a espera de uma resposta. Resposta esta que não veio por parte dele: rapaz de altura mediana, cabelo crescido, diversos colares no pescoço, pulseiras artesanais no punho, e sem falar nos anéis de tucumã que tinha em cada dedo da mão esquerda. Da parte dela, quem sabe se por essa aparência não muito convencional faltou-lhe a coragem de chegar junto e confessar o que acabava de sentir. Faltou coragem, ousadia. E sobrou medo...
Um ano depois e a vocação nasceria. Reencontraram-se nas dependências do antigo Colégio Objetivo, por ocasião do Curso de História da Igreja na Amazônia. Ela o reconheceu: ainda usava colares e anéis. E ele a conheceu: olhos radiantes, cabelos negros e lisos, lábios carnudos e provocantes, porém sem batom. E perdeu-se numa paixão meteórica. Também era amor. Uma vez apaixonados viveram uma semana mágica. Não se largavam um só instante. Acariciavam as mãos numa simetria perfeita. Dialogavam como se se conhecessem há muito tempo. A intimidade aparente não antecipou o momento certo do beijo. Que só veio lá pelo terceiro dia numa escapada furtiva em plena hora de almoço. Um único beijo. Como se deixaram entrelaçar esqueceram-se do proibido: um pecado que impossibilitaria qualquer tentativa de um namoro. Eram, pois, vocacionados a vida consagrada. Ele, prépostulante a padre. Ela, aspirante à freira.  
A partir da semana seguinte não mais se beijaram. Não mais se encontraram. Assumiram de fato a vida religiosa. Só nos olhares o amor se correspondia. Foi assim durante todo aquele primeiro ano. O sentimento ficou mais distante quando, no ano seguinte, ele cursou todo o postulantado em São Paulo. Sabe-se que durante este período apenas uma carta foi escrita. E quando ela recebeu leu uma única vez e a queimou em seguida. Tinha medo das superioras descobrirem.
Passado esse ano, ele retornou e foram vivenciar o noviciado em dois mil e oito. Naquela época as duas congregações caminhavam juntas. Embora estivessem próximos, os corações se distanciavam. Ela relutava em seguir o caminho religioso. Ele a perseguia com olhares, apertos de mãos e abraços íntimos. E a cada oportunidade que tinha de abraçá-la sussurrava ao pé de seu ouvido: “eu te amo”. Realmente, o amor lhe tomara de conta. Perdeu totalmente o interesse pelo convívio comunitário. As laudes, hora média, vésperas e completas não passavam de leituras demoradas. Nas adorações ao Santíssimo, adormecia na capela num sonho em que somente ela fazia parte. Sonhos sem amassos. Sem pecado. Sonhos simplesmente de amor... E nem nos passeios e convívios sentia interesse. Nesse ritmo, embriagou-se numa tristeza e angústia sem fim. Queria a todo custo provar novamente daquele doce e suave beijo de quase dois anos atrás. E em meados de agosto pediu dispensa. Três anos de seminário e uma saída que nem mesmo ele sabia o motivo. Se era amor, paixão ou vocação só o tempo responderia.
Ela continuou na vida religiosa. Meses depois também viria a sair. Assim como ele, não soube definir o motivo. Levaram vidas separadas até certo ponto. Ou melhor, até ele saber que ela também havia saído. Quando soube, partiu numa busca desenfreada por quem tanto se apaixonara. E tempos depois revelavam ao mundo o amor que durante todo aquele tempo de congregação se manteve escondido. Sim. Finalmente juntos!
Hoje completam quase seis anos de um amor que se revigora a cada instante. Não acreditam que perderam a vocação que tanto almejavam. Pelo contrário, encontraram a vocação que de fato lhes era devida. Pois, de toda essa experiência lembram com total exatidão da antiga frase que ficava na sala do convento e que em diversas ocasiões refletiam-na juntos e que hoje, acreditam que ela responda perfeitamente o destino que traçaram, ou que lhes foi traçado: “Nossos caminhos são mistérios da Divina Providência”.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Quando os opostos se atraem


A única lembrança materna que vagamente lhe vinha à mente era do momento em que sua “mãe-madrasta” dividia o pouco carinho que tinha com seus clientes maltrapilhos. Logo órfã de mãe, óbito ocasionado por grave doença do exercício da profissão, ficou a mercê do altruísmo católico dos orfanatos onde, pelo amanhecer, ouvia a voz trêmula da sexagenária Freira proferir do púlpito um sermão que julgava todas as ações más do homem provenientes da ação do demônio. Mas diferente da sorte da mãe, o destino lhe foi favorável. Não sentiu empatia pelo trabalho generoso das Freiras para com os pequeninos. De lá aproveitou somente o estudo. E esse estudo viria a tornar menos duro o seu pão de cada dia. Saiu do convento direto para a Faculdade. Conheceu os clássicos de Homero, as dicotomias saussurianas, as tantas gramáticas que se estuda na academia, chegando até os estudos literários mais contemporâneos. Fundiu perfeitamente a Linguistica com a Literatura. Assim não deu outra: tornou-se Doutora das palavras. Eximia oradora! Mas até então, festejou sozinha todas as conquistas. Faltava-lhe um companheiro. Alguém para andar de mãos dadas ao entardecer. Alguém em que ela pudesse aterrissar seu coração.

Lá no passado, passou-me despercebido o fato de que nossa personagem travava uma briga constante com a beleza. De todas as meninas dos orfanatos por onde passou sempre ficava no grupo das meninas mais feias: cabelo fuá, meio raquítica, olhos esbugalhados, pele encardida. Sempre quando se penteava diante do espelho profetizava a própria sorte no amor: “acho que morrerei solteira, ou permanecerei para sempre aqui neste lugar como a Irmã Raimunda que de tão feia, homem nenhum consegui namorá-la. Ou mesmo saindo daqui, ainda sim, ficarei solteirona, pois qual o homem em sua plena sã consciência teria coragem para casar-se comigo?” (ela era realmente feia!)

Depois de formada a feiúra lhe atenuou um pouco. Agora titulada conseguia arrancar leves suspiros de alguns homens, assim como ela, exclusos de certa beleza. Mas como se diz por ai que os nossos bens materiais nos fazem ser vistos pelos outros, o anel de doutora cintilando em seu dedo despertou num átimo um amor repentino. Quem seria esse homem que possivelmente estaria ruim das faculdades mentais? Ela logo soube.

Era um professor da mesma escola onde trabalhava. Era recém contratado. O amor dos dois cresceu numa proporção que nem a matemática seria capaz de calcular. Foi um meteoro de paixão. Ela ficou enfeitiçada por aquele homem, burro, mas bonito. Era o par perfeito na imaginação dela: “eu com o conhecimento; ele com a beleza”. Mas na mente dele o pensamento foi outro: “nossa! Se não fosse doutora a minha coragem não seria tamanha. Há! criatura horrorosa”. Ela não quis saber de estender o romance pré-inicial. Pediu logo a mão dele em casamento. Ele aceitou prontamente. Casaram-se...

Hoje faz 15 anos que estão casados. Soube disso visitando a escola onde trabalham, ontem. E fiquei perplexo por uma coisa. Alias uma coisa grande. Ela contou-me que depois do casamento as coisas mudaram e muito. Ele mostrou-se mal educado sem os mínimos modos na mesa. Não a beijava mais com a mesma intensidade do inicio. Sentia vergonha dela em alguns momentos na rua. Tornou-se até preguiçoso indo trabalhar somente quando queria.

No dia seguinte tive de retornar a escola e desta vez a conversa foi com o marido dela. Contou-me que até certo ponto arrependeu-se de casar-se com “aquela mulher”. Isso mesmo AQUELA MULHER! Falou-me das piadinhas dos colegas de trabalho referentes à “beleza” de sua esposa. Falou-me que ela tornou-se muito grudenta etc.

No fim, percebi o seguinte: eis aí um casal perfeito do ponto de vista do capitalismo: ele apaixonou-se pelo Doutorado da esposa. E ela somente pela beleza exterior dele. Completaram-se: a feiúra encontrou a beleza; e a burrice encontrou a sabedoria.

sexta-feira, 22 de março de 2013

As peraltices de Jhone Boy: um curumim fora da lei

O nome fora dado pelo papai em homenagem aos artistas de filmes de bang bang. Se fosse pela mãe teria sido um nome da folhinha dos santos, ou como segunda opção, de um ator famoso da novela das nove. O fato é que o nome escolhido foi Jhone. Muito incomum em meio aos Franciscos e Joãos da beira do Tapajós (e dizem que por lá, agora, os filhos só tem nome de estrangeiro). Mas não era só no nome que o pequeno era diferente dos curumins. Logo cedo deixou de lado o leite materno para tomar, escondido, mamadeiras de caldo de acari. Detestava as cantigas de roda. Alegrava-se com as canções de Raul Seixas que o pai ouvia em fita num velho som 3 em 1 Panasonic. Aliás, a sua única cantiga de nina era “Cowboy Fora da Lei”. E essa seria a trilha sonora de sua vida.
O curumim era mesmo travesso. Passava o dia que Deus lhe dava fazendo macaquices. Mas seus pais e vizinhos pensavam que eram apenas brincadeiras. Pobres adultos! Como a casa era quase dentro do pasto o pequeno, assim que aprendeu engatinhar até o batente da porta, atormentava os bezerros puxando-lhes o rabo. Era o início de uma vida bandida. Logo, estava a “malinar” dos menores e mais idosos.
Dizem que os pais foram cúmplices do curumim. Assim que ele começou a equilibrar-se sozinho o pai construiu um andador de madeira plainada (muito comum nos interiores da Amazônia). Mas pra quê? Agora motorizado, o pequeno esbanjava seu ar boçal pela pequena vila. Empurrava alucinado sua motoca. E ai de quem não recolhesse o pé. Ele passava mesmo por cima e ainda dava macha-ré ao som de altas gargalhadas. E assim fez a sua primeira vítima: dona Marisó a benzedeira da vila. Crime? Uma unha arrancada. O castigo? Uma chinelada no bumbum. Mas pra quê “cabuco”! Olha só o que aconteceu...
Foi no dia da Festa da Santa. Na noite do leilão das iguarias. Lá estava nosso curumim com seu possante. Na manhã desse mesmo dia ele planejou espalhar o caos na festa. Soltaria uma bomba “gaso-venenosa” a base de cará roxo, feijão, repolho, macaxeira e ovo de galinha caipira comidos na noite anterior. E armou-se! Pendurou em sua motoca a corda de “peiá” a vaca do pai. Já na festa tocou o terror. Primeiramente, um pum de alerta. A mãe, precipitada, tirou-lhe a fralda e o pequeno escapuliu rumo à mesa do tacacá, vatapá e bolos. Atrás dele o rastro de tudo aquilo que havia comido na noite anterior. O odor, diziam os mais antigos, parecia piché de peixe moído, ou de mandioca podre. Até aí tudo bem. Era só tampar o nariz e degustar das iguarias. Mas antes que a mãe do curumim o pegasse para limpá-lo ele, como num ato de vaqueiro profissional, pegou a corda do seu possante e laçou a mesa sobreposta com as iguarias do leilão jogando quase tudo no chão. E pior: em cima do seu rastro de sujeira fedida.
Nascia assim o mito. Mais malino que boto furador de malhadeira. Mais temido que velho virador de bicho. Era ele: Jhone. Jhone não. Jhone Boy um curumim fora da lei.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Felicidade de Pobre

imagem da internet

Ele era um nada por completo. Filho bastardo de Malena, famigerada meretriz do calçadão de Copacabana na década de oitenta.

Cresceu sem o amor materno. Uma vez que os seios da mãe não davam conta de “amamentar” filhos e amantes ao mesmo tempo. Por isso, tornou-se nômade na infância: visitava orfanato aqui e açula. Numa coisa feliz: tornou-se mendigo ao invés de ladrão, ou outra coisa pior.
O garoto com nome na infância transformou-se em adulto sem passado. Não possuía documento algum. Nem tão pouco a dignidade de um nome. Assim, sem nome, atendia por meros pseudônimos: Mendigo, Sujeira, Zé, Porcaria ou Qualquer Coisa.
A luta suada pelo pão de cada dia o fez homem trabalhador. Seu oficio era catar papelão nas proximidades da Avenida São João. Nas horas vagas, namorava Jesuína, prostituta de meia idade que atendia na Rua Augusta, coração de São Paulo.
O dia se fez comum aos outros. Já a sorte não. Estava Zé Ninguém na sua labuta diária, revirando papelão, quando de súbito seus olhos flamejaram ao ver um bilhete de loteria meio amassado no fundo da lixeira. A ação na tardou. Recolheu o bilhete e como todo “bom pobre” sonhou vida nova na esperança da sorte está contida no cartão.
Pondo-o no bolso, pôs-se rumo ao cafezinho da esquina. Parou diante da porta de entrada fitando os olhos em direção a televisão posta sobre o balcão de atendimento. O apresentador dizia:
_Foram sorteados, ontem à noite, os números da sena: 05, 28, 30, 50, 14, 07.
Mendigo retirou o cartão do bolso. Fez a leitura dos números (ler números ele sabia, ainda que pouco). Alegria infinita! Os olhos flamejaram num instante. Acabava de ser o mais novo ganhador da loteria. Alias, ele não, e sim o bilhete achado. Mas quem se importaria com isso nessas alturas?
Fez-se de “bom pobre” novamente indo ter com sua fortuna o primeiro encontro. Uma maleta cheinha. Sacou todo o dinheiro de uma só vez. Dali um carraço esportivo, desses de filme de ação. Isso depois de muito tentar convencer o vendedor de sua fortuna, já que a aparência não demonstrava.
Chegou pousando de galã em frente ao cortiço da puta-amante. A sonoridade grava da buzina do carraço, fez Jesuína abandonar um cliente em meio aos deleites da cama. Atraída não se sabe pelo mistério da cena ou o fascínio do carro, ela desceu rapidamente as escadas do velho cortiço. Entrou sem avaliar o perigo, no carro. Ao entrar, viu Jesuína Qualquer Coisa a acender um charuto cubano com uma nota de cem reais. Partiram guiados por um “chofer”.
Primeira parada: salão de beleza. Fizeram tudo a custa do premio. Ele, barba, cabelo, pés e unhas. Ela, escova, chapinha, maquiagem e massagem facial. Seguindo, compraram roupas de grife e sapatos importados. Por fim, revitalizaram os semblantes com dentaduras novas.
Brindaram a noite num motel luxuoso de São Paulo, suíte presidencial, onde estiveram a salvo das interrupções diárias de clientes de Jesuína alheios ao seu horário de descanso ou de trabalho.
O sol da segunda feira raiou. Os amantes dispuseram-se a enfrentar a “ressaca amorosa” com um passeio pela cidade. Lá pelas tantas, Zé Ninguém depara-se com um dos seus. Para retribuir o gesto de amor que por tantas vezes lhe fora prestado, dá, por entre o vidro e a janela, uma esmola “generosa” de dez reais para o pedinte. Espanto geral! Não pela esmola gorda. Mas por essa ser a última notinha da maleta.Voltou ao motel para encarar a realidade: carraço, setenta mil reais. Roupas e são de beleza, dez mil reais. Noite de amor, dez mil reais. Frustração e mais nada. Do dia para a noite sua vida mudou. As oito da manha, catador de papelão. Às três da tarde, homem de sorriso de ouro. Nas horas da noite, nos prazeres de uma meretriz feita ninfeta maquiada. E na manha da segunda feira, sem carro com a sola do pé no chão, sem roupas com as vergonhas quase a amostra. E sem mulher só sua: verdadeiro Zé Ninguém. ..

domingo, 16 de setembro de 2012

A Professorinha

“És também professor”?

Perguntou ela fitando diretamente em meus olhos. Confuso e sem entender o por quê da pergunta, respondi de forma seca e cautelosa:
“Não! Sou aluno também”.
Aquela volta às aulas parecia um inicio de um conto, desses em que o autor narra uma aventura amorosa ou se restringe em apenas contar o desejo do aluno em relação a sua professora.
Imaginava, naquele ano, perder a aversão ao português à inabilidade com as palavras. Mas o que seria talvez a minha salvação tornou-se fruto do meu pecado.
Apresentava-se em sala de aula de forma provocante, sensual. Dominava aparentemente a língua portuguesa. Sua forma de se expor à frente fitava os olhos de seus alunos em sua direção. E eu tímido e indiferente fazia em minha mente comentários a seu respeito:
“Que mulher linda. Que pernas atraentes”.
O objetivo que me prendia em sala de aula já não era o gosto em aprender e sim em fantasiar cenas de amor tendo como atriz principal ela que atendia pelo nome de SIMONE.
O querer nem sempre é poder. Podia admirá-la de qualquer forma mas no obscuro de minha mente vinha aquela voz me dizendo “esquece ela não esta ao teu alcance.” E eu sonhador sempre ignorava essa voz.
Ao chegar à escola sempre me colocava a frente do seu corpo só para apreciar suas curvas e linhas. E numa dessas apreciações pude vê o que se escondia por detrás daquela mini-saia tentadora. Qualquer homem naquele momento daria a vida para esta no meu lugar. Meu desejo sexual ate então adormecido despertava naquele momento.
Fiquei tolo por alguns segundos igualmente um menino ao ver pela primeira vez uma mulher despida. E aquela cena perfeita do paraíso diante dos meus olhos seduziu minha imaginação para o surreal. Ouvia-a dizer-me: “queres vê o que tenho de melhor?”.
Numa noite de forma inesperada fui surpreendido pela presença de minha musa educadora ao meu lado. Ela dizia-me ter entregue a uma de minhas colegas um bilhetinho desses que recobrem mentas. Meu pensamento confundia-se. Queria ter em mãos aquele bilhete para desvendar a expressão do amor contida nele. E na ânsia do saber imediato não esperei pelo tempo corri em direção a minha colega com a resposta imaginaria da equação do amor. Tristeza profunda. Melancolia eterna. Esta o perderá. Sim, agora minhas suposições se voltavam para onde será que estaria o meu papelzinho de menta mais valioso do mundo. Porém, a surpresa maior estava por vir.
A ousadia era a marca singular daquela educanda do amor. Não seria mas preciso procurar nos quatro cantos do mundo por aquele bilhetinho. Ele estava ganhando forma bem diante dos meus olhos. Sim! Ela transcrevera no meu caderno a equação do amor que dizia: “falta pouco para eu te dar um beijo”. Senti-me o máximo. Logo eu inabilitado para com as mulheres recebera um bilhete da mais formosa e sensual professora da escola. Se antes disso me sentia confuso, agora achava que iria enlouquecer. Lia dez, vinte, trinta... ate cem vezes por dia aquela frase. Tudo o que é bom, dura o tempo necessário para ser inesquecível. No momento em que eu iria solucionar a tão árdua expressão do amor com uma resposta prática, meu desejo se fizera por acabar. Estava eu em casa a despertar. “Ah... ah... ah...”.

quinta-feira, 15 de março de 2012

História de um Amor nas entre linhas

Às folhas tantas de um livro literário,
Eis que me perdi de paixão: ao te conhecer, personagem plana do meu coração.
Conheci tua infância, as tuas primeiras balbucias do falar,
Como um eu - poético tudo eu conhecia, tudo via, tudo sabia...
Narrador onisciente do amor,
Deixei-me envolver nas tuas aventuras, desventuras, casos banais conjugais e foi aí que percebi, que a minha vida sem a tua vida, não teria sentido de existir; 
Um casamento literário com certeza, porém sem resquícios de delicadeza,
 Pois amante fiel eu jamais pude ser, pois a cada folha que eu folheava outras mulheres conhecia, outras mulheres amava: psicólogas, pedagogas, matemáticas, advogadas, professoras...
...E naqueles corredores apertados, a cada dia um amor eu vivia, a cada dia um livro eu lia. Sim! Amores literários...
Como num conto de amor, ou num soneto de amor total, fazia da vida uma poesia a partir de cada livro que, na antiga Ruy Barata, eu lia.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O CASTIGO

Na centésima vez o cansaço foi maior que o peso do próprio castigo. A mão não respondia a vontade do corpo. Assim, despencaram a caneta junto com o caderno da correção moral e educativa daquele lugar: a temível masmorra disfarçada.
O pequeno condenado daquele dia tinha um passado que nem ele próprio possuía consciência disso. Era um carregador de livros. Saía todas as manhãs em busca de não se sabe o quê, uma vez que desconhecia a própria razão de ser.
O dia não foi diferente dos outros. Já era freqüentador assíduo da poltrona da tortura. Diferente apenas foi o motivo do castigo: desrespeitou o seu colega de aula. A punição: jurar no caderno das lamentações que não mais iria repetir tal atitude. Por isso, deveria jurar por escrito não mais repetir tal situação.
Não sei ao certo se o castigo corrigiu aquele menino. O que sei é que a distinta biblioteca ainda continua sendo usada como uma terrível masmorra onde o prazer da leitura é tido como o pior dos castigos daquela escola.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

MEU PRIMEIRO AMIGO



Meu grande amigo...
O ano é o de 1998. O cenário a cidade de Santarém. O motivo: um trabalho para a escola. Talvez, se não fosse isso, eu jamais o teria conhecido.
Ele era mais novo que eu. Devia ter uns dez a nove anos de idade. O que não o tornava inexperiente. E por falar em experiência, nesse ponto, ele estava muito acima de mim. Enquanto eu conhecia apenas a minha cidade, ele conhecia o mundo. Já havia singrado até os sete mares. E eu agradeço toda essa sua experiência, visto que ela me foi passada por ele.
Conhecemos-nos numa linda manhã de outono. Meu pai foi quem nos intercedeu ao primeiro diálogo. Antes dele eu apenas me lembrava de um velho amigo o qual era careca e morava numa cidade onde todos os meninos também eram carecas. Essa cidade chamava-se a “A Serra dos Meninos Carecas”.
O meu novo amigo tinha um nome forte posto por seu pai. “Cérbero o Navio do Inferno” este era o nome do meu novo amigo e primeiro de verdade.
Dalí para frente não tive muitos outros. Contentei-me apenas com quatro ou cinco. Passei a ter o mesmo pensamento de Nelson Rodrigues.
Hoje sou um jovem que rejeita qualquer amizade. Fico apenas com aquelas que realmente me dão um sentido na vida. As que são mais baratas, essas me conquistam o coração. As que são mais caras me afugentam do diálogo. Eu prefiro o livro mais barato e mais cheio de conteúdo para a minha vida.

Rômulo José, quando do meu primeiro livro.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Fabiano pós Vidas Secas...

O que terá acontecido a Fabiano? ...
Quem conhece um pouco da vida miserável desse homem, não deve fazer muito esforço para imaginar o que lhe terá acontecido.
Após a saída fugida da fazenda (fugindo da fome, do patrão ruim, das dificuldades, dos desencantos da vida...), a sofrida família, pôs-se a vislumbrar-se com as promessas de vida boa nas terras do norte do Brasil. Aliciados pelo “gato” fizeram aqui morada.
Sei disso tudo, pois foram justamente ser vizinhos de meus pais, na colônia Igarapé do Onça. Para lá foram seduzidos por promessas, mas a realidade foi totalmente outra.
Não tive noticias dos meninos. Já tinha superado a morte da cachorra Baleia. Agora contava com muitas outras “Baleias” magras e condenadas a morte. Aliás, morte antecipada. Fabiano poupava o sofrimento das coitadas a bala. Amarrava duas ou três ao pé da mangueira e disparava um tiro único para não gastar a munição que deveria servir para caçar a onça, que segundo ele rondava a casa. Apenas delírio de fome. Fome que nunca lhe deixara.
Certamente a vida não melhorou. O pouco trabalho que conseguia na roça não era suficiente para a alimentação. Sem falar na dona Sinhá que todos os dias amanhecia com dores e doenças imaginárias. Isso lhe deixava preguiçosa a qualquer tipo de trabalho. Pior para Fabiano.
(...)
Depois de muito tempo. Muita penúria e miséria. A casa onde moravam ou cuidavam foi vendida. Fabiano até não podia saber ler mas era esperto de mais da conta. Reviveu o fazendeiro que lhe atrelou dividas a terra de tal modo que não podia pagar. Desta vez teve um pouco da mesquinhez do fazendeiro. Exigiu dinheiro para devolver a terra ao legitimo dono.
Não sei ao certo quanto lhe pagaram para sair. Sei apenas que na última vez em que La estive, o vi a carregar sacas de mandioca nas costas. Magro, sofrido e esperanço, igualmente no livro.