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sábado, 20 de dezembro de 2014

Causos Amazônicos: o menino encantado de corpo e alma



O acontecido é de muito tempo atrás. Aconteceu ali pelas mediações do Arumã, Flexal, Igarapé-açu comunidades da Óbidos Amazônica. Ciloca, ainda no vigor da juventude, acabara de bater o açaí quando desceu, por volta do meio dia, para lavar as peneiras e as vasilhas no igarapé. O menino de cinco anos correu na frente com a peneirinha na mão. Quando a mãe chegou com as demais vasilhas viu que a criança, misteriosamente, havia desaparecido ficando somente a peneira boiando sobre as águas. O desespero foi imediato. A mãe logo gritou despertando a preocupação dos moradores. Num instante, metade do vilarejo estava ali numa busca desenfreada pela criança. Homens na água, na mata... mas nada do curumim. Quando o sol já começava a dar sinais de despedida, um velho senhor lançou a suspeita de o caso ser de encante. E se de encante fosse, somente mestre Pacífico seria capaz de desfazer.
Mestre Pacífico, como se costuma dizer por aqui, era da época dos antigos, sexagenário descendente dos tapuias de quem herdara os dons do curandeirismo. O velho disse com a firmeza da certeza de que o menino havia sido levado pela mãe do igarapé, mas que a mãe não se preocupasse, pois o menino iria ser bem tratado, e se ela ainda o quisesse ver pela última vez a mãe do igarapé, depois de oito dias, iria emergir a criança das águas. A mãe cuidou de preparar os remédios ensinados pelo velho curandeiro. Depois de oito dias retornaram então ao local do sumiço da criança.
Por volta do meio dia, hora em que a criança havia sido levada pelas águas, conforme ensinado pelo mestre, a mãe despachou “os remédios” na beira do igarapé. Minutos depois, a criança emergiu das aguas segurada por duas mãos. Ciloca correu para pegar o filho, mas este desapareceu rapidamente para todo o sempre.
Há,até hoje, quem diga que depois desse episódio ouviu-se em toda a comunidade barulhos de uma festa que parecia vir do fundo das águas do igarapé. O barulho durou três dias e facilmente se podia ouvir o som de tambor, clarinete, saxofone e outros instrumentos musicais.
(causo reescrito a partir do relato do senhor Maisses Gomes, 79 anos)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Será se foi boto sinhô? Mistério à beira do Grande Rio

Há dias que a moça dava sinais de estranheza: pouca conversa, olhar semimorto, rosto pálido e corpo cada vez mais esquio. Nem de longe parecia àquela linda tapuia por quem os corações dos jovens caboclos ardiam em brasa e as paixões eram inevitáveis. Os cochichos na vila davam conta de que ela não era mais moça e, por isso, sofria as consequências. Outros se arriscavam em dizer que aquilo era obra de feitiço. Mas o certo mesmo é que ela não confessava nem sob pena de morte os motivos do comportamento estranho. Mesmo assim, talvez a primeira opção fosse a mais aceitável, já que a moça mantinha um namoro com um belo mancebo da outra margem do Amazonas. Um jovem de beleza rara e vida misteriosa. Ninguém jamais proseara com ele nas festas no barracão. A não ser a jovem tapuia, que com certeza sedia-lhe os ouvidos para declarações românticas como sempre acontece com os jovens enamorados no inicio da paixão. E outro mistério: o jovem garboso só aparecia nas noites em que a lua se escondia.
Naquele final de tarde, quando a boca da noite escurecia ainda mais as águas do Amazonas, a indiazinha piorou: o corpo começou a arder em febre, os olhos avermelharam-se como fogo, o suor-frio umedecia o lençol feito de cortina, a cama rangia assustadoramente. Só a fala não dava sinais de piora ou melhora: permanecia muda.  Com ela no quarto, os familiares e alguns comunitários benziam-se com o sinal da cruz ajoelhados de frente dos santos sobre a penteadeira. Nem as preces fervorosas acalmaram o espírito da jovem. O medo tomou conta de todos. Afinal de contas, que mal era esse que possuía o corpo da pequena cunhatã? E eis então que resolveram chamar inicialmente o padre. Porém, uma velha tapuia advertiu que aquilo não era assunto de homem de igreja, e sim de quem sabia desfazer quebranto. Chamaram então a benzedeira.
A benzedeira não tardou a chegar. Era uma senhora tipicamente cabocla: usava vestidos longos ornados com muitas sementes, no pescoço levava sempre um colar de olho de boi (semente da nossa região) para espantar possíveis quebrantos. No calcanhar prendia um dente de jacaré para salvá-la das picadas de cobras na mata. O semblante era assustador: olhos escurecidos, dentes amarelados. Consequência do tabaco que mascava como se fosse chiclete. Os cabelos definiam-se num amontoado de fios.  Se por um lado faltava-lhe beleza, por outro, sobrava-lhe o dom de decifrar os mistérios que envolvem a alma humana. Assim que entrou na casa - uma tapera de paredes de taipa, teto de palha e assoalho de paxiúba - bateu o barro das sandálias no batente da porta feito de tampinhas de refrigerante. Entrou direto no quarto. Já conhecia bem a casa. Puxou de uma sacola velha que trazia um livrinho de capa amarelada e folhas gastas. Aproximou-se bem da moça. Com as mãos enrugadas sentiu cada parte daquele corpo esquio. Demorou mais na região da barriga. Com grande experiência, a benzedeira nem precisou fazer reza. Guardou o velho livro. Pediu que só a mãe da jovem permanecesse ali. O caso era de família! Sem delongas perguntou a mãe da jovem desde quando aqueles sintomas começaram a se manifestar. A mãe gaguejou na resposta. Mas ainda conseguiu dizer que achava que tudo começara dias antes da filha iniciar namoro. Namorar! Exclamou a velha benzedeira. E é namoro de futricamento? Perguntou.
Por aquelas bandas do amazonas, antigamente, as mulheres casavam moças. A indagação ofendeu a mãe que crente na honra da filha respondeu negativamente. Só depois que a benzedeira afirmou se tratar de caso de homem a mãe forçou a filha a revelar o nome do caboclo. A jovem tapuia cuja fala não havia perdido e que, apenas em casos como esse, fingi-se de muda, nem o nome do garboso mancebo soube dizer. Apenas uma descrição de leve conseguiu lembrar-se: “ele usava na maioria das vezes um terno de linho, chapéu de abas, um vistoso relógio”.  E mais: confessou que todas as vezes que namoravam sentia-se seduzida por um forte cheiro de patichuli, que se (misturava) confundia a um forte piché. E nem sabe Deus como, adormecia e acordava sempre a margem do rio pela metade da madrugada. E quando dava por si corria em disparada para casa.
A benzedeira ouvindo todo o relato da jovem não titubeou no diagnóstico. E secamente afirmou se tratar de caso de homem. Mas que tipo de homem...? Pensou solitariamente.
A mãe ao ouvir as palavras da velha injuriou-se de tanto ódio. Mas o que fazer? O mal já estava feito. O que a filha tinha de mais importante perdera. O jeito em tão era tocar a vida. E esperar... Esperar. Talvez pensasse a mãe. Mistério então resolvido? Se fosse na capital pedia-se DNA na justiça e logo se saberia quem era o pai da criança. Só que por aquelas terras a coisa é bem diferente. Primeiro, espera-se a criança nascer para daí saber se o caso foi só de desonra, de feitiço ou de encantamento. E que Deus a livre deste último.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Contos Amazônicos: No rastro da Cobra Grande.

Um último capítulo e a dissertação estaria pronta. Mas este lhe travou a mente e logo a escrita estagnou. Também pudera: o tema era sobre os encantos míticos das lendas amazônicas. Para ser mais preciso O Mito (lenda) da Cobra Grande.  Assim, angustiado pela inspiração do tema que não vinha, o nosso quase doutor lembrou-se de buscar novas orientações com um grande mestre na cultura (e vivência) amazônica que lecionava Cultura Amazônica naquela faculdade. A conversa entre os dois se deu ali mesmo na sala de pós-graduação. O nosso personagem amazônico era de uma aparência tipicamente cabocla e trazia amarrado nos punhos um dente de jacaré e um olho de boi (uma espécie de semente da nossa região) que segundo ele era para espantar possíveis “quebrantos”.  A conversa fluiu sem delongas. O novo orientador explicou que a dissertação ficaria bem mais pautada se o pesquisador fosse beber diretamente da fonte do objeto a ser pesquisado. Isso implicaria numa longínqua viagem de São Paulo a Óbidos, onde, segundo os antigos, disse o professor da Amazônia, está adormecida nas profundezas do Grande Rio Amazonas uma monstruosa serpente cuja cabeça esconde-se debaixo do altar na Igreja da Senhora Santana.
O postulante a doutor, a priori, não gostou muito da ideia de dar sangue a mosquitos nas brenhas de cá. Mas fazer o quê... pensou ele. O professor olhando a sua desmotivação primeira deu-lhe um único conselho: “Vá meu caro... mas tome muito cuidado com os encantes do boto e da Maria Caninana...”. Ouviu-se logo em seguida uma risada baixa e debochada...
Dois dias depois e o aeroporto Internacional de Santarém Maestro Wilson Fonseca saudava o doutorando paulistano. Ele foi direto para o trapiche e de barco dirigiu-se até o município de Óbidos. Ao chegar pensou está em Portugal tamanho a semelhança da arquitetura das casas. Percorreu todo o centro obidense até a praça do estreito. Ali mesmo começou a sua pesquisa lendo nas placas de zinco as descrições que os primeiros navegantes portugueses fizeram da antiga região dos Pauxis. Dali foi até a Casa de Cultura (antigo forte) onde em fim encontrou os primeiros relatos da Cobra Grande. Os relatos diziam que a misteriosa serpente se metamorfoseava em uma linda cabocla que seduzia até o mais valente de todos os homens. As descrições o deixaram num misto de curiosidade e novamente de deboche: como alguém poderia acreditar numa história dessas? O pensamento foi tão alto que uma mulher que também ali pesquisava o advertiu: “cuidado moço aqui tem pescador que jura que já sofreu as judiações da cobra”.
De tão compenetrado que estava nem percebeu a boca da noite chegar. De frente da praça do “Ó” fotografou algumas imagens e desceu até a orla. Era uma noite em que a lua se escondia. O banzeiro das águas turvas do amazonas batia o casco das embarcações no cás. Quando caminhava já de fronte da Serra da Escama, de longe avistou uma canoa conduzida por uma linda mulher. Neste momento um desejo inconsciente o dominou e quando retornou a sã consciência estava devidamente acomodado na canoa feita de peça única. A mulher logo perguntou quem ele era e em que ela poderia o ajudar. A resposta veio sem intermédio: “sou de São Paulo. E estou aqui para fazer uma pesquisa sobre um mito da Cobra Grande. Você conhece São Paulo. Não é? Conhece também esse mito”? “Se conheço o mito? O mito conheço muito bem. Muito bem mesmo... Mas São Paulo não. Só conheço lugar de muita água”. Respondeu a linda mulher.
La pelas tantas da conversa o quase doutor pediu para que ela o levasse até certo ponto do rio e que ao mesmo tempo fosse contando sobre a lenda. Ela o atendeu e remou até próximo ao Paturi enquanto narrava à mística aparição da cobra. Não tardou muito e desceram aos pés da Serra da Escama. Numa distração e a linda mulher desceu primeiro e enveredou-se nas brenhas da mata sem mesmo levar a poronga que alumiava a canoa.  O homem citadino desesperou-se naquela escuridão infernal. Ouvia esturros vindos da mata, galhos de árvore se quebrando, uivos desconhecidos... Sentiu até mesmo o forte piché prenúncio de mau presságio que só mesmo os antigos ribeirinhos são capazes de sentir.
Retomando o último estágio de coragem que tinha lembrou-se da minúscula lanterna que levava na bolsa da câmera fotográfica. E com esta pequena luz servindo-lhe de farol tentou remar, sem sucesso, até a orla. O mais que conseguiu foi direcionar a canoa na mesma direção do forte banzeiro. Nesse exato momento sentiu uma forte pancada na canoa. Pressentiu que algo de mistério na água o atocaiava. Logo as descrições do bote da Cobra Grande vieram-lhe a mente. O medo tomou-lhe de conta. A pilha da lanterna pifou. Por desespero ligou a câmera fotográfica e eis que nesse momento uma grande bolha de ar se fez próxima à canoa e dela emergiu uma enorme serpente com aparência de mulher. O homem ofegou a respiração. Estava diante do que tanto negava, porém muito buscava. A última ação que conseguiu fazer foi apertar o obturador da máquina disparando um intenso flash fazendo com que a maldita serpente o engoli-se num só bote e desaparecesse nas profundezas da Garganta do Amazonas.
Dias depois uma enorme anaconda era exibida no antigo mercado de peixes. E quando os pescadores cortavam-lhe para retirar o couro, um assombroso episódio ocorreu: em suas entranhas um cadáver em putrefação. Reconhecido por um dos carregadores que assistia a cena macabra. “Rapaz... esse caboco é um professor lá de São Paulo que veio pra cá estudar a lenda da Cobra Grande. Eu carreguei as malas dele do barco até o táxi. Eu ainda disse pra ele que essas coisas de mexer com essas misuras era perigoso... maldita cobra...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O mistério do Mapinguarí II


Esta é uma continuação do Mistério do Mapinguarí
Naquele ano, a cheia do Tapajós fora uma das maiores que os ribeirinhos já haviam presenciado. As maronbas já estavam bem próximas do telhado. Nem o cemitério São Pedro havia poupado. E o pior disso foi que algumas sepulturas desceram pororoca a baixo. Entre elas a do temido vei Mariano. Para quem muitos virava bicho nas noites em que a lua se escondia. Mas deste velho defunto, além da lembrança de medo restou, no cemitério quase submerso, partes do caixão de madeira roliça que parecia ainda intacta junto com o livro de capa preta. Sim, o mesmo que o acompanhou no caixão. Logo, o mesmo medo de outrora tomou conta dos ribeirinhos. Mas como? Se em todos esses longos anos nem uma aparição de “bicho” se fez naquela localidade. “Ainda não se fez. O mal tem a sua hora certa...” Com voz trêmula disse um dos caboclos mais velhos da comunidade. Esse mesmo homem, ignorando o medo e as maldições que o acompanham, pegou o temido livro e o levou para sua velha tapera. Parece que este fato de interromper o sossego dos defuntos despertou as aparições antes quietas. Já nessa mesma noite a calmaria dormiu bem distante da comunidade: o banzeiro nas águas do Tapajós amedrontou até mesmo o mais experiente canoeiro; os cães latiam sem parar em direção à mata; esturros se ouviam na imensidão da floresta escura...
Pela manhã, os comunitários acreditavam que todas as “misuras” da noite anterior só apareceram porque o livro de São Cipriano fora retirado do caixão do “vei Mariano”. E de forma hostil expulsaram o senhor que havia retirado o livro do caixão. Pois, acreditavam que o livro dava forma a uma antiga lenda mítica da Amazônia, em que, por meio de orações macabras, o homem se transforma num gigantesco macaco devorador de cabeças: o lendário Mapinguarí.
O velho então pegou alguns molambos, um pouco de fumo, a antiga poronga, pôs tudo em uma bajara e foi-se para as bandas de Óbidos. Mais precisamente na Serra da Escama. Alguns dizem, que na verdade ele se transformou em boto para enfrentar as águas barrentas do amazonas.
Tendo chegado, buscou morada no topo da serra onde nenhum vizinho poderia curiar a sua vida.
Os habitantes locais que chegaram a vê-lo amedrontaram-se com sua aparência rústica de caboclo indígena. E ele era. Descendia dos velhos Tapuios acima da Cachoeira do Aruã.
Se todo mal tem seu momento certo para acontecer, como ele mesmo havia dito, a noite de sua chegada pareceu à hora marcada. Nem bem a boca da noite deu as caras e um misto de medo e apreensão tomou conta da comunidade. Ouviu-se um esturro seguido de uma correria mais feia do mundo nas brenhas da mata. Os moradores armados adentraram a floresta na picada de onde vinham os esturros. O desespero foi grande quando se depararam, num pequeno barraco ainda sendo coberto por algumas palhas de açaizeiro, com um homem jogado ao chão numa macabra metamorfose: os ossos todos contorcidos, nas mãos garras maiores que as de um gavião-real, os olhos juntavam-se na fundição de um só bem no meio da testa, a boca havia sumido, mas apenas de lugar, pois apareceu no estômago bem no lugar do umbigo. Os bravos caçadores não tiveram dúvida: era o forasteiro virando bicho. Evocando preces malignas do livro da capa preta em cima de uma boroca. Querendo metamorfosear-se no Mapinguarí. Mas antes mesmo do homem virar bicho por completo, a experiência dos homens daquelas bandas fez com que, como reza a lenda, perfurassem o umbigo da criatura levando-o a morte.
O corpo do velho tapuio, assim como todos os seus pertences foram enterrados num caixão de paxiúba numa velha fossa.
Agora vá lá saber se realmente a morte conduziu a fera para bem distante do mundo dos vivos. Ou se a criatura se fez de morta para amedrontar outras comunidades...

quarta-feira, 21 de março de 2012

O homem chorou...

Chorou de forma copiosa, amedrontado por uma possível separação súbita de matrimonio.
Então ele chorou...
Descarregou toda a sua fúria amorosa em suas obras literárias. Sim! Por um instante desprezou as amantes da madrugada: o alivio do seu ganha pão.
O homem mais que chorou...
Embebedou-se num soluço nunca tido antes.
E chorou... Chorou... Chorou... e chorou!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O MISTÉRIO DO MAPINGUARÍ

Sobre a mesa a garrafa de café encardida, o cachimbo recém usado e uma velha “poronga” que alumiava o interior do barraco de taipa. Num canto próximo ao camburão com milho e as sacas de feijão e farinha, uma vela acessa. Ajoelhado diante dela seu João Tenório, um velho senhor malacafento, roga a seu santo sorte na mira da espingarda. Terminada a reza, o homem amarra em um dos pés um enorme dente de jacaré para expulsar de si todo e qualquer perigo de ser picado por cobra. Em seguida, senta-se no único tamborete da casa segurando firmemente a espingarda. Acende novamente o cachimbo e assim, calmamente, espera por um novo ataque do maldito bicho. Seria realmente o lendário monstro o responsável pela matança de muitos de seus animais nas noites anteriores? Ou seria apenas a ação de um caboclo vadio, querendo matar a sua ingrata fome e meter medo nesse pobre senhor?
A noite seguiu sem novidades. O silencio era predominante. Até que no principio da madrugada a calmaria deu lugar a tormenta. Os cachorros começaram a latir desesperadamente em direção a mata. Os animais do sitio debatiam-se assustados. Foi exatamente nesse momento que um enorme estrondo vindo da selva seguido de um grito intenso fez o homem acordar e arrepiar-se por completo. Benzeu-se por três vezes fazendo o sinal da santa cruz. Abriu rapidamente a cancela e pôs-se com a espingarda em punho e a lanterna na mão em direção a primeira vereda que viu na mata. Chamou os cachorros, mas esses, com medo, se recusaram a obedecê-lo. Então correu sozinho seguindo o rastro do bicho a quebrar a floresta.
Passada quase uma hora de perseguição o homem cansou-se. Resolveu então esperar pelo bicho até aquele momento, desconhecido. Subiu em uma árvore mediana. E lá fez tocaia por mais de uma hora. A todo instante ele pressentia a presença do bicho. De repente... O mistério de qual bicho seria aquele responsável por dilacerar dez cabeças de gado, cinco porcos, dois patos e sete galinhas desvendava-se. Verdadeiramente, aquele senhor tinha razão. A fera revelou-se: enorme, pra mais de dois metros de altura, pêlo grosso, mais grosso que qualquer couraça que já tenha existido, unhas enormes e afiadas, na testa os olhos medonhos e na altura do umbigo a boca monstruosa. Tratava-se do lendário MAPINGUARÍ.  
O ouvido aguçado da fera colossal sentiu a respiração miúda do homem. E eis que o monstro exalou um piché, o que fez com que o senhor João perdesse as forças e caísse próximo aos pés da besta. O medo tomou conta do pobre senhor, mas ainda sim, esse não titubeou por completo. Ergueu a mão trêmula, mirou bem no umbigo do monstro e disparou a espingarda. Porém, a fera moveu-se rapidamente fazendo com que o cartucho atingisse apenas a proximidade de seu umbigo. Ferido, o bicho deu um pavoroso esturro agonizante e disparou, desnorteado, em meio ao breu da mata. Quase incrédulo pelo acontecido, seu João Tenório, ofegante, voltou para casa atordoado pelo confronto com o diabólico ser.      
Passado o episódio quase kafkiano, uma aparente paz voltou há reinar no sitio de seu Tenório. O silencio foi quebrado um dia com a chegada de alguns vizinhos que vieram convidá-lo a fazer uma reza na casa do já malacafento Mariano, morador longínquo da comunidade, de quem se dizia virar bicho durante as noites por causa de sua fisionomia fantasmagórica: esquio, barba encardida, cabeludo, olhos amarelados e a boca quase banguela, a não ser pela permanência das presas escuras.  Seu Tenório, de sangue tapuio nas veias, seguiu com os vizinhos até a casa do Mariano, a fim de providenciarem as Exéquias. 
 A casa era de uma aparência assustadora. Um livro de capa preta em cima do pitisqueiro chamava atenção dos visitantes. Na verdade, aquele morador não convivia com a comunidade. Ninguém sabia de sua origem. Rara às vezes, que acompanhava uma ladainha aqui e outra acolá, mas apenas de dia e sempre com atitudes estranhas. Dirigiram-se ao quarto e encontraram o velho de aparência amedrontante já agonizando na cama. Um lençol encardido cobria um ferimento de cartucheira bem na altura do umbigo. Questionado do ferimento, alegou ter disparado por distração o do badogue que pusera dias antes no quintal de casa com o intuito de capturar um veado. Não tardou e um último suspiro se viu sair de suas narinas. À boca da noite, enterraram-no em um caixão de madeira roliça na outra margem do Rio Tapajós.   
Na noite seguinte, o senhor João Tenório não mais acendeu vela, não fez reza, fez apenas o sinal da santa cruz uma vez só e passou a noite inteira, espreguiçado na rede atada sobre o paiol de arroz tomando goles compassados de café amargo. Em fim... o sossego.
E ainda tem caboclo amazônida teimoso que insiste em dizer que isso não passa de uma lenda.
  

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Boiúna



Diz-se que a floresta é o mundo do encantamento: onde as entidades ganham forma e seduzem o caboclo. Sedução, aliás, longe da imaginação de uma musa exuberante; sedução mítica e muitas vezes assombrosa.
O “caboco”, de quem agora passo a narrar tais acontecimentos, não era crente dessas aparições de jurupari, cobra-norato, curupira, boto... Mas também não era descrente. Sabia respeitar a crendice (era como ele simplesmente chamava tais manifestações) de seus vizinhos, moradores do Tapajós. Porém, o protagonista de nossa narrativa verídica, após mítica experiência em meio à floresta noturna viu-se forçado a redefinir suas certezas.
O dia, que pela assombrosidade do encontro apagou-se de sua memória, não me foi relatado. Isso, porém, não foi empecilho para que a história sofresse perdas e a mim fosse contada de maneira quebrada. Quando das primeiras indagações que fiz, o homem gaguejou nas respostas. Parecia ainda estar possuído por um espírito. No entanto, enganei-me: era apenas medo que ele sentia. Tendo puxado três ou quatro vezes uma respiração profunda, ele disparou a falar:
_ “Rapaz era umas meia noite. Eu já tinha vasculhado toda aquela mata e nada de caça. Foi quando então eu decidi voltar pra casa. E se eu te contar que durante o caminho de volta eu ouvi um choro parecido com de criança? Mãe do céu! Fiquei todo arrepiado, a modo que alguém me seguisse. Logo mais na frente, depois da castanheira do Raimundo André, eu vi uma criança no chão. Devia ter alguns anos. Confesso que não era das mais bonitas... Levei-a pra casa a modo cuidar dela. Semanas depois, o povo começou a dizer que era filha de boto ou da mãe da mata. Eu não dava ouvido pro que eles diziam. Tratei da pequena.
Porém, quando ela completou seus sete anos percebi mudanças em seu comportamento. O olhar passou a ter uma tonalidade morta. Os beiços ficaram roxeados. As mãos pareciam não corresponder com a idade. Isso fez com que cada vez mais o povo passasse a ter certeza de sua origem.
Distante de tais crendices resolvi levar minha filha pro médico, do outro lado da mata. O caminho seguia uma longínqua trilha paralela ao igarapé da Toca da Raposa. Já tendo percorrido mais da metade do trajeto ouvi uma voz estranha. Como se uma mãe procurasse pela filha perdida. Isso me arrepiou todo, mas não a minha filha. Depois das três bocas vi uma bela mulher em pé ao lado do maracujazeiro de macaco. Ela chamava pela minha filha. Isso mesmo!!! Logo imaginei ter encontrada a mãe da pequena.
Chamou-a três vezes por um nome que não pude muito bem compreender. A pequena, meio que hipnotizada, segui em direção a mulher estranha. Esta a pegou pelos braços dando-lhe um abraço caloroso. Nesse instante percebi que a fisionomia de ambas mudava de maneira sorrateira. Os olhos ficaram vermelhados, a pele como de cobra, no lugar dos cabelos pareceram cobras horríveis. Uma escuridão repentina desclareou o lugar. A mulher desferiu um grito agudo e ambas mergulharam no garapé”.
Foi o causo que me aconteceu...