Mostrando postagens com marcador Análise Literária. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Análise Literária. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Análise do Conto O Caso da Vara, de Machado de Assis


Machado de Assis é considerado um grande criador de personagens femininas. Suas mulheres são frequentemente misteriosas, enigmáticas, dotadas de grande sendo de percepção, capazes de manipular psicologicamente o mais astuto dos homens. (BAGNO, 2004). Esta citação nos dá a dimensão da importância de Machado de Assis para a literatura brasileira e mundial.
Situado na escola literária a que se chamou de Realismo, Machado soube como ninguém, não só no romance como no conto, inserir em sua obra os costumes contemporâneos de sua época.
Machado também é conhecido por trabalhar com o íntimo das personagens, o que segundo o professor Massaud Moisés classificou de Realismo Interior. Uma prova disso é o enredo que encontramos no conto O Caso da Vara.
No conto é possível identificar diversas características machadianas, principalmente em relação à personagem feminina. Obedecendo a constituição do conto (MOISÉS, 2004) Machado apresenta-nos uma única célula dramática ao narrar à história de um seminarista, que sem a vocação ao sacerdócio, vê em Sinhá Rita a única chance de poder convencer o pai da ideia de não torná-lo padre.
A ambiguidade também é uma das características de Machado de Assis. E ela pode ser encontrada desde o título. Pois, espera-se que o leitor queira saber do enredo a partir do título. Mas “o caso da vara” fica em segundo plano até o desfecho da história.
Ambiguidade está que vamos encontrar em Sinhá Rita.
Sinhá Rita apesar de seus quarenta anos parecia ter vinte e sete. Parecia bondosa; amiga de rir. Mas ao mesmo tempo, brava como o diabo. Em si a autoridade, o comando. Tudo isso representado em sua fala de ação: “Pode... há de ser possível, afianço eu”. Essa ação de está acima da voz do homem é explorada em sua certeza de conseguir que o jovem Damião não mais retorne ao seminário. Pois, era ela quem estava dizendo.
Sinhá Rita não age assim por acaso. Machado deixa a entender que ela mantinha relações “íntimas” com o padrinho de Damião, o senhor João carneiro. Apresentando-nos assim uma mulher calculista. 
Se um bom conto é aquele que em seu desfecho deixa uma dúvida no ar, em O Caso da Vara Machado de Assis conduz o leitor a pensar que agora sim, o título fará sentido. Pois, é justamente esse caso que decidirá o futuro do jovem seminarista. Perceba que nessa cena temos ressaltado o poder de decisão que Sinhá Rita adquire: uma autêntica mulher de comando.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Análise do conto O Baile do Judeu, de Inglês de Sousa.

Em O Baile do Judeu, Inglês de Sousa cerca-se de vários elementos que constituem o imaginário do homem amazônico para narrar uma da lenda muito conhecida do caboclo da Amazônia: a lenda do boto. Esses elementos constituídos ao longo da narrativa iniciam já no espaço onde a história acontece: a casa do judeu.
É preciso entender, primeiramente, que segundo o que se sabe sobre a lenda do boto é que ele se metamorfoseia em homem e seduz as lindas caboclas em bailes a beira do rio. E a sedução contada no conto se dá na casa de um judeu.
A primeira manifestação do imaginário do homem amazônida é o medo em participar do baile justamente por ser na casa de um judeu. Aqui é preciso lembrar que sobre o povo judeu recai a culpa pela condenação e crucificação de Cristo. Por isso, para o baile, nem o vigário e o sacristão foram convidados. E os que foram, aceitaram o convite, embora temerosos de acontecer-lhes algum castigo. Como mais tarde, supostamente acontecera, aos integrantes da banda que desafiaram os preceitos religiosos e ousaram tocar, no baile do judeu, com os mesmos instrumentos que utilizavam na animação das missas.
É nessa parte da narrativa que podemos fazer uma nova relação com o imaginário amazônico. Os instrumentos que serviam de acompanhamento nas missas – momento santo – jamais poderiam animar festas profanas. Como punição a isso vieram as mortes “suspeitas” e por isso, relacionadas ao baile: a morte de Chico Carapanã por afogamento; e a Pedro Rabequinha coube uma prisão por descompostura.
Já quando o baile chegava pela meia noite eis que surge um convidado estranho. Com relação a este, é cercado de mistério. Ninguém consegue decifrar a sua face. E embora seja misterioso e feio, logo seduz e põe-se a dançar freneticamente com a rainha do baile Dona Mariquinhas. Essa sedução criva de inveja o coração dos outros homens fazendo com que os cochichos tentem adivinhar a identidade do homem. As alternativas eram de que se tratava de “alguma troça do Manduca Alfaiate ou do Lulu Valente”. Um grande chapéu que lhe escondia a face deixava essa tarefa ainda mais difícil.
Todo esse mistério é revelado somente no final da obra. “No meio dessa estupenda valsa o homem deixa cair o chapéu, e o tenente-coronel que o seguia (...) viu com horror que o tal sujeito tinha a cabeça furada” (SOUSA, 2008:87).
Como percebeu o leitor, o homem-boto foi descoberto ou reveado. E uma última associação que podemos traçar com o imaginário caboclo é o fato, depois de revelado, o boto “espavorido pelo sinal da cruz que lhe fora feito”, corre com a moça sob seu encanto e atira-se, ribanceira a baixo, nas águas do amazonas. Aqui se destaca a importância do Rio como símbolo de morada dos seres encantados.

PARA SABER MAIS: ESTA ANÁLISE NÃO EXAURIU TODO O CONTEÚDO DO CONTO. ELA É APENAS UMA ADIÇÃO AO SEU CONHECIMENTO.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Análise da obra O Primo Basílio, de Eça de Queirós

De autoria de José Maria Eça de Queirós, O Primo Basílio é uma “fotografia” que revela a falsa moral presente nas famílias, aparentemente, de bem da sociedade burguesa de Portugal. Narrado em terceira pessoa, o tema central do livro é a infidelidade amorosa cometida por Luísa para com seu marido Jorge. O grande amante dessa situação é Basílio primo de Luísa, e que no passado foram amantes juvenis. Além da infidelidade, essa relação proibida dos amantes, gera uma ação de chantagem por parte da criada Juliana.
O enredo
Como já citado, a trama gira em torno do ato de traição que Luísa, esposa de Jorge, realiza com seu primo Basílio. Embora o casal Jorge e Luíza levasse uma vida feliz perante aos olhos da sociedade, a monotonia desgastava a relação dos dois. O que abriu portas para a infidelidade de Luíza, já que não se sentia mais amada e completada pelo homem com quem dormia. Aliás, na descrição que o próprio Eça de Queiróz faz na carta a Teófilo Braga, Luísa é "a burguesinha da Baixa" (Lisboa, Cidade Baixa): urna senhora sentimental, sem valores espirituais ou senso de justiça. “É lírica e romântica, ociosa e nervosa pela falta de exercício e disciplina moral”. E como diz o velho ditado: quando não se encontra em casa, procura-se na rua. Luísa foi buscar nos braços do primo o amor que lhe faltava. Basílio envia uma carta à prima dizendo de sua chegada. Logo que chega visita à prima na ausência de Jorge e percebe a fragilidade sentimental que a prima estava passando. Logo depois de uma nova visita Luíza entrega-se de corpo e alma ao primo. Os encontros fortuitos tornam-se quase que diários, até a criada Juliana começar a desconfiar do ato infiel. A criada consegue uma carta que Luíza entregaria ao amante e a partir daí começa um jogo sórdido de chantagem. Por fim, Jorge descobre por ventura as aventuras infiéis que sua mulher cometia desfechando o romance numa tragédia romântica que bem já conhecemos.
Mas todo esse enredo, todos esses personagens simbolizam muito para o entendimento da obra. Uma das características do Realismo é a critica a sociedade, ao caráter anticlerical. Tudo isso por meio do comportamento humano. E que exemplo melhor Eça de Queirós poderia nos proporcionar ao narrar à sedução e adultério dentro de uma família “exemplo de fidelidade, da boa moral e dos bons costumes”? As personagens em O Primo Basílio representam a tipificação do homem. Com aparições, no romance, sua presença se faz sentir pelo papel social que representa: é o marido. E a forma como poderá reagir à infidelidade, é especulada pelo narrador através, de outro personagem, Ernestinho , autor medíocre que prepara uma peça teatral sobre um caso de adultério, pede a Jorge uma opinião sobre o final de sua obra. Um marido deve matar a mulher adúltera? Luíza, o motivo que a leva a se entregar a Basílio, de acordo com as reflexões de Eça, nem ela sabia. Uma mescla da falta do que fazer com a "curiosidade mórbida em ter um amante, mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo físico...". Já Basílio, em momentos de maior dramaticidade, quando começam a enfrentar as consequências do adultério, o seu cinismo fica mais evidente: ele pensa apenas que teria sido mais vantajoso trazer consigo uma amante de Paris. Juliana se conduz pela revolta (não suporta sua condição de serviçal), pela frustração (fracassou na tentativa de mudar de vida), pelo ódio rancoroso contra a patroa (ódio, na verdade, contra todas as patroas que a escravizaram por 20 anos).
Segundo palavras do próprio autor, o Romantismo "... em lugar de estudar o homem, inventava-o. Hoje o romance estuda-o na sua realidade social. (...) Toda a diferença entre o Idealismo e o Naturalismo está nisto. O primeiro falsifica, o segundo verifica". Em O Primo Basílio o homem é observado como um animal: suas ações não são frutos de sua vontade, mas parece derivar de um determinismo que está aquém dele. Vemos isso na figura da criada Juliana que tem suas ações justificadas pela vida que levou.
Outra característica realista presente na obra é maneira descritiva das ações e espaços em que os personagens estão inseridos. Diferentemente do Romantismo em que o ato descritivo dispensava os por menores, no Realismo a descrição é feita amiúde. O autor procura nos colocar dentro da ação descrita, pois tamanha é a riqueza de detalhes. O que também se diferencia do Romantismo, é “contaminação” dos personagens até mesmo o protagonista. Luíza não é pura, fiel, obediente como Joaninha. Espelha o que há de pior numa esposa: a infidelidade amorosa.
Por fim, o livro inova a criação literária da época, oferecendo uma crítica demolidora e sarcástica dos costumes da pequena burguesia de Lisboa. Eça de Queirós ataca uma das instituições consideradas das mais sólidas: o casamento. Com personagens despidos de virtude, situações dramáticas geradas a partir de sentimentos fúteis e mesquinharias, lances amorosos com motivações vulgares e medíocres - tudo isso, ao mesmo tempo em que ataca, desperta o interesse da sociedade de Lisboa. Eça de Queirós explora o erotismo quando detalha a relação entre os amantes. Inova também ao incluir diálogos sobre homossexualismo.

Referências bibliográficas
QUEIRÓZ, Eça de. O Primo Basílio. 1°ed. São Paulo: Martin Claret, 2007.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 33°ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.


terça-feira, 12 de março de 2013

Análise do poema Tabacaria de Fernando Pessoa

Imagem da Internet
  1. “Navegar é preciso, viver não é preciso; Viver não é necessário; necessário é criar”./ “Tornar minha vida grande, ainda que o meu corpo tenha de ser lenha desse fogo”.
“Como empurrado contra o mar, toda a sua história (de Portugal), literária e não, atesta o sentimento de busca dum caminho que só ele representa e pode representar” (MOISÉS, 2004:13). Prova disso, são os versos pessoanos de que “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Ora, esse verso somado a “Tornar minha vida grande, ainda que o meu corpo tenha de ser lenha desse fogo”, também inserem a arte a partir do ponto de vista do existencialismo. Ainda segundo MOISÉS (2004:178) agora no seu Dicionário de Termos Literários, o Existencialismo enquanto corrente filosófica dirigi-se para a essência do individuo. E enquanto elemento empregado na arte literária centra-se a sua atenção no desvendamento da existência.
Fernando Pessoa expressa claramente essas afirmações nos versos já citados. Ele próprio, enquanto poeta, buscou esse existencialismo (fuga de si) sendo um e ao mesmo tempo muitos ao criar dentro de si outros “eus” (heterônimos).
Em “Navegar é preciso, viver não é preciso; Viver não é necessário; necessário é criar”. Essa arte aqui comentada pode simbolizar a busca de uma existência. Com relação a navegação ela vinha em primeiro plano para Portugal à época. A partir dela a vida se descobria. Navegar por si só já era viver. E se viver era navegar, levar uma vida longe dos desafios da navegação não tinha importância. Importante sim era criar.
Já no segundo verso, “Tornar minha vida grande, ainda que o meu corpo tenha de ser lenha desse fogo” Pessoa expressa o que é muito próprio de sua poesia: a presença do próprio eu em busca de indagações sobre a própria vida. É a arte de criar a partir da corrente existencialista. “(...) Ainda que o meu corpo tenha de ser lenha desse fogo” o poeta é o próprio eu: ao mesmo tempo em que é fogo, também é lenha. O eu poético alimenta-se de si mesmo. Busca por uma indagação paradoxal que em ao mesmo tempo em que é não é. 
 
  1. O tema cidade no poema Tabacaria relacionado à estética pessoana.

Em Tabacaria, poema de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) o tema cidade permeia todo o poema. Isso se deva por ter sido construído por um poeta cuja profissão é de engenheiro. Mas não é somente como engenheiro que Álvaro de Campos descreve o mundo que o circunda, mas como “poeta moderno, século XX, que do desespero extrai a própria razão de ser e não foge a sua condição de homem sujeito a maquina...” (MOISÉS, 2004:244).
Como poeta que é, em Tabacaria deixa de lado o olhar matemático de engenheiro e lança em muitos versos a literariedade em que expressa a condição do homem da época inserido num progresso emergente das cidades. “Janelas do meu quarto” em que o autor observa o vai e vem da cidade. Aliás, a janela até hoje, em muitas localidades, é por onde se observa o movimento dos forasteiros e as atividades vizinhas. “Com o destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada”. “A fileira de carruagens de um comboio e uma partida apitada”. Este último verso simboliza perfeitamente o tema cidade. É um anúncio do crescimento citadino; da efervescência das cidades. É só lembrar que essa mesma aglomeração de carruagens evoluiu para as aglomerações que hoje presenciamos. E que hoje “a partida apitada” acontece até nos portos de nossa Amazônia.

  1. O Existencialismo no poema Tabacaria de Álvaro de Campos
No poema Tabacaria, de Álvaro de Campos temos aí a corrente filosófica a que se chamou de Existencialismo e que a arte utilizou para o desvendamento da existência humana.
Em Tabacaria, conforme destaca SARAIVA e LOPES (2001:1000) “o espírito reflexivo de Pessoa, acaba, em certos momentos, por desvalorizar a sua própria razão humana”. Isso, logo desde o inicio do poema: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada...”. Importante lembrar que embora Álvaro de Campos não seja o próprio Pessoa, mesmo assim a luta interna pelo desvendamento da condição existencial do ser também lhe é característica. Essa afirmação de ser nada (vazio) e ao mesmo tempo de que nunca será nada e de que também não pode ser nada converge para um paradoxo que só mesmo uma reflexão existencialista poderá dar cabo de uma resposta. A mesma ideia apresentada nos versos: “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?/ Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!”. Esses versos configuram “uma terrível estranheza de existir, um acordar para a misteriosa importância de existir, que preludia o existencialismo de meados do século” (SARAIVA & LOPES 2001: 1000) a poesia pessoana.
Ainda em Tabacaria temos um verso que explora magistralmente o conceito existencialista na poesia de Fernando Pessoa: “Com o destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada”. Nesse verso vemos o dilema conflituoso existencial do eu. Pessoa age assim como o filósofo Sartre em seu livro “O Ser e o Nada”. Mas Fernando Pessoa, como já citei, busca uma resposta a essa existência paradoxal. Pois, ao mesmo tempo em que o tudo é tudo ele se faz em nada. E o destino, personagem responsável por muitas de nossas indagações, é o condutor principal dessa vida existencialista.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Análise do filme Um Método Perigoso (numa abordagem educacional).

Em Um Método Perigoso, temos representado por meio da sétima arte parte da vida de dois grandes mestres da psicanálise: Carl Jung e Sigmund Freud. Neste filme de David Cronenberg a trama gira em torno do conceito e uso da psicanálise pelos dois grandes psicanalistas. O enredo tem como foco os casos amorosos em que o personagem representando Jung mantém com suas pacientes. Essa relação amorosa leva ao pé da letra o conceito de Transferência. Na Psicanálise, a transferência é um fenômeno que ocorre na relação entre o paciente e o terapeuta, quando o desejo do paciente irá se apresentar atualizado, com uma repetição dos modelos infantis, as figuras parentais e seus substitutos serão transpostos para o analista, e assim sentimentos, desejos, impressões dos primeiros vínculos afetivos serão vivenciados e sentidos na atualidade. Isso se revela nos diálogos entre os personagens Jung (Michael Fassbender) e Sabina Spielrein (Keira Knightley) em que o psicanalista acaba se tornando amante de Sabina.
Se voltarmos a nossa interpretação do filme para uma possível importância desse método de Transferência para educação, nossa análise se baseará no fato de que nesse processo existe uma relação em Freud reconhece a possibilidade de que a transferência acontecia na relação professor-aluno. O professor tem seu sentido esvaziado para receber o sentido que é conveniente para o desejo inconsciente do aluno. Assim o professor se torna importante para o aluno, já que possui algo que pertence a ele. Desta situação o professor Freud adquire poder, que tanto pode ser usado para ensinar e preparar o aluno Jung quanto para influenciá-lo com o objetivo de doutriná-lo segundo suas próprias crenças. A mesma relação de fato acontece no processo ensino-aprendizagem em sala de aula uma vez que, o professor “esvaziando-se” e “preenchendo-se” do conteúdo trazido pelo aluno é capaz de conduzi-lo a um melhor aprendizado ou molda-lo conforme sua ideologia.
Ainda sobre o filme, nele é possível perceber que a psicanálise tem por objetivo “curar os problemas da mente”. Logo no início, isso é colocado em cena quando a personagem Sabina, em sua crise psicótica que se assemelha a uma mulher possuída, começa a discorrer sobre sua infância e as surras que levava de seu pai. A priori tudo nos leva a crer que ela diria ser abusada pelo pai, mas pelo contrário, essas surras são justamente a sua fonte de prazer sexual e toda vez que passava por momento parecido ou igual excitava-se loucamente e o prazer era eminente. A ação da psicanálise nesse caso era curar-lhe dessas lembranças. O que só viria acontecer mais tarde. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Contos: O Homem da Areia e As Babas do Diabo


No conto O Homem da Areia temos aí uma luta travada entre a “perseguição” que o jovem Natanael sofre por Copellius. Desde a meninice, a imagem do homem da areia criada por sua mãe, essa imagem diabolisada pela criada da casa, o acidente e a morte do pai até a vida adulta Natanael sofre com isso. O autor do conto reflete a maneira pela qual deveria contar tal história. Assim, como nas Babas do Diabo vemos o autor mergulhado num dilema crucial: ambos são tomados por espírito que os induz a ter de escrever, a contar: era uma vez... ou logo medias in res; “nunca se sabe ao certo como isto deve ser contado”.
O Homem da Areia destaca a questão dos olhos: olhos que encantam e olhos que enganam. Destaco o momento em que Natanael encanta-se por Olímpia através de seus olhos. Parecem tão reais (como a fotografia), mas não o são.
Uma das características contidas em ambos os contos, além do dilema do autor em como contar a história, esse desprender da ideia da consciência do autor para ser posta no papel, está, também, a ambiguidade.
Nas Babas do Diabo, temos um morto que conta a história. Este relaciona ideias diferentes ao mesmo tempo. No momento em que narra a história relata outras ações que presencia. O conto descreve sobre a imagem fotografada que nem sempre pode ser real.
Já no outro conto temos como forma de ambiguidade a imaginação de Natanael concretizando a figura do Homem da Areia a racionalidade de Clara que julga como delírio ou apenas como construção imaginaria a figura do Homem da Areia cultivada por Natanael.  

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Análise da obra Viagens na minha terra, Almeida Garrett.

De autoria de João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett, Viagens na minha terra, como afirmou o próprio Garret, é um livro “despropositado” e “inclassificável”, uma vez que as espécies literárias misturam-se: relato jornalístico, literatura de viagens, idílio amoroso etc. Tudo numa só obra. E é justamente essa impureza dos gêneros a principal marca deste livro. Almeida Garrett promove o ineditismo ao introduzir na literatura portuguesa “a narrativa dentro da narrativa”. Mas vale ressaltar que o seu gênero “literatura de viagem” já estava em voga. O próprio Garrett deixa claro que a sua obra é fruto do contato com esse tipo de escrita: “que viaje a roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes (...)”. Numa clara correspondência com Voyage autour de ma Chambre, de Xavier de Maistre.
Como já citei há duas narrativas contadas numa só. Dividido em 49 capítulos, primeiramente, o livro narra a viagem verídica que o autor fez até Santarém a convite de seu amigo Passos Manuel. Não se trata de uma viagem simplesmente turística, em que somente a contemplação da beleza é descrita. Mas de um relato de viagem em que o autor tece diversos comentários sobre a situação em que Portugal se encontra, quanto a: riqueza, progresso, literatura, política, modéstia, guerra, clero, amor etc. Isso podemos perceber em passagens como: “a ciência deste século é uma grandessíssima tola. E, como tal, presunçosa e cheia de orgulho dos néscios”. “a sociedade é materialista; e a literatura que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista”.
A segunda narrativa inicia quando o autor chega a Santarém e passa a contar a paixão vivenciada entre o casal de primos Carlos e Joaninha. Esse idílio amoroso merece especial atenção. Joaninha – a menina dos rouxinóis – representa perfeitamente a imagem da mulher romântica: seus olhos são verdes, é integra, pura e fiel a seu amor (Carlos). Tem apenas sua avó no mundo. Uma senhora já bastante idosa e cega. Recebe a visita, todas as sextas-feiras, de Frei Diniz. Frade franciscano que escondeu por muitos anos ser o pai de Carlos. Frei Dinis representa o velho poder do estado. Imutável as mudanças. Temos, também, Georgina, mulher que divide o amor do coração de Carlos. E por fim, temos o personagem Carlos que representa o alter ego de Almeida Garrett.
O tempo entre as duas narrativas não é linear. Entre uma e outra o autor faz diversas digressões sobre assuntos suscitados pela observação do estado atual de Portugal: desde o canto dos rouxinóis a situação política vigente. Só depois disso que Ele assume a narrativa deixada anteriormente. É um narrador-autor, em que a primeira pessoa predomina. Utiliza-se de vocativos para prender a atenção do leitor (leitora) ao enredo da obra: “leitor benévolo, leitor amigo...”. Deixa clara a recusa clássica de se fazer literatura ao deixar de lado os amiúdes das descrições clássicas: “vamos à descrição da estalagem; não pode ser clássica; seja romântica”.
Segundo Massaud Moisés (A literatura portuguesa, 2010) “o mais significativo da obra reside no idílio entre a campônia e ingênua Joaninha e o inglesado e conflitivo Carlos”. Em Carlos, percebe-se a “projeção confessional da própria vida interior de Garrett: Carlos é talvez o mais autêntico de seus alter egos”. Já Joaninha, como já disse, representa o ideal romântico de mulher. Sua relação com Carlos nos faz lembrar o fim trágico dos amores românticos que conhecemos: Joaninha ao saber que o amor que Carlos sentia por ela era dividido com outra mulher (Georgina) entristece-se e morre de desgosto. Já Georgina, não tendo o seu amor concretizado por Carlos, enclausura-se como abadessa de um convento.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Análise do conto A Viagem do Elefante de José Saramago


Embora as 256 páginas (Companhia das letras) de A Viagem do Elefante, José Saramago façam o leitor deduzir de se tratar de um romance, o próprio Saramago afirma o contrário ao dizer que aí não temos uma relação de amor: “o elefante não se apaixona por uma elefanta”. Mas qual o enredo desse conto narrativo?
A Viagem do Elefante é uma narrativa de base histórica que conta a viagem que o elefante salomão fez de Lisboa a Áustria. Isso mesmo, uma longa Odisséia percorrida por esse paquiderme.
Ocorre que Dom João III, rei de Portugal e Algarves, esposo de dona Catarina d´Áustria, receberam um convite para o casamento do Arquiduque austríaco Maximiliano II. Pensando no presente que ofertariam aos noivos, eis que dona Catarina lembra-se do elefante que possuíam, que viera de Goa, e resolvem então, dá-lo como presente. É importante que o leitor saiba que era costume dos reis dominadores possuírem para si animais exóticos que simbolizassem a nova cultura conquistada.
 O restante de toda a narrativa ocupa-se em narrar à trajetória percorrida pelo elefante sempre guiado pelo seu conarca Subhro e a comitiva real. Depois que o elefante passou aos domínios do Arquiduque, este mudou-lhe o nome para Solimão e de seu conarca para Fritz, pois ao Arquiduque é dado o poder de mudar o destino das pessoas.

Algumas características da obra:

Ø  Gênero Textual: Conto. Temos apenas uma única unidade dramática. Poucos personagens;
Ø  Narrador: 1ª pessoa (Onisciente intruso). É o tipo de narrador que tudo sabe, tudo vê e que introduz comentários durante a história;
Ø  Espaço: Lisboa – Espanha – Áustria;
Ø  Tempo: Cronológico – linear;  
Ø  Personagens: salomão/Solimão (protagonista); cornaca Subhro/Fritz (excêntrico). A Subhro é dado no conto à voz de muitos daqueles que a história ignorou. Na narrativa, embora o personagem seja desconhecedor das filosofias dos livros, ele mantém relação de prosa com reis e arquiduques; 

Características da Obra: Como percebê-las?

Ø  “Os trechos do livro é que qualificam tais características”! É preciso ler toda a obra;
Ø  O autor narra um fato histórico;
Ø  Crítica a Igreja Católica;
Ø  Inovação na escrita: “(...) quando de repente quase gritou, Temos o salomão, Quê, perguntou o rei, perplexo, Sim senhor, salomão, o elefante, E para que quero eu aqui o elefante ...
Ø  Fugacidade da vida;
       
Para saber mais leia:
SARAMAGO, José. A viagem do elefante. São Paulo, Companhia das Letras, 2008;
IMAGENS DE UM ELEFANTE INDIANO, NOS ANOS DE 1551 E 1552, EM
PERCURSO EUROPEU (SARAMAGO).
Denise Rocha- Fundação Universidade do Tocantins- UNITINS, Palmas. Cintia de Vito Zollner- UNESP- UNITINS-Pibic.