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terça-feira, 31 de março de 2020

Ao filho que tenho


Hoje, não mais escrevo ao filho que quero ter.
Escrevo ao filho que tenho.
Ao filho que me faz ficar tolo, dengoso, manhoso...
Que me faz traçar diálogos no Bebenês, no iti malia...
Que faz despertar em mim um conceito novo de amar te amando.
Que me faz imaginar dedicatórias acadêmicas em teu nome.
Escrevo ao filho que toma do café que faço,
Que assiste comigo a filmes não comerciais
Que ainda ouve minhas músicas e
Escuta minhas histórias literárias.
Escrevo ao filho que rouba meu lugar no sofá
E que me expulsará da cama.
Que me faz amar...
Que me faz amá-lo...
Que me faz antes de tudo ficar tão bobo imaginando:
Os dias que ainda faltam para te ver sorrindo
Pra te ver andando...
Os dias em que irei acalentar teu choro em prantos.
Te segurando em meus braços e te ninando:
“Dorme neném que a cuca vai pegar, mamãe foi para roça e papai foi trabalhar”.   


Óbidos, 2020    

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Aos olhos semimortos


Tristonhos olhos...
Aqueles olhos que lhe pareceram semimortos.
Eram tímidos
Pareciam carregar em sim certo quê de não sei o que,
Que os faziam rígidos as inconstâncias do momento.
Mas vez ou outra acompanhavam a contração física do rosto.
Eram de vida e morte.
Aliás, diziam que o corpo acompanhava toda a fisionomia do semblante.
Assim, era de toda reflexo do próprio olhar…
Certa vez, fitou-a seriamente.
Encante!
Penetrou, singularmente, na anatomia poética daqueles olhos...
Não queria. Sim, não queria.
Mas como encante (sempre a revelia do ser encantado),
Passou a imaginar aqueles olhos em tudo que via...

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Um rio d'ouro

Um rio d’ouro deságua no meu peito, onde estarão teus poetas? Como negar silhuetas de montanhas na tua alma? As lágrimas e o sangue entrelaçados nessa tua tez de barro; não, não, eu prometo não chorar pelos teus melhores filhos, prefiro sentir o aroma das gordas piracemas, ouvir a chuva naquelas inesquecíveis palhas, hoje eu até fumaria pra embebedar-me do teu silêncio, pra sentir a integridade dos frutos dos teus cílios, pra reacender tuas velhas fontes e evitar que me leves ao mar porque não sei mais das tuas aldeias anciãs e nem quero esquecer a voz dessa cidade.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Varal de Sonhos

Com o amanhecer de cada dia me vem os sonhos ainda sonhados.
Estendo cada um num tipo de varal do inconsciente,
Não para que fiquem ali estendidos secando ao sol.
Mas para que ao cair da noite eu possa recolher cada um na forma da concretização sonhada.
O varal dos sonhos é metáfora!
Logo, não queira exigir seu significado completo.
Nesse varal cabe uma infinitude de pensamentos...
Pensamentos postos a cada amanhecer
Que pelo raiar do sol, que escapa por detrás da Serra,
São iluminados os passos da caminhada para se chegar ao sonho: Sonhos de Varal...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Poema de reconquista

Deixei por bom tempo de escrever-te.

Sustente-mei em rimas passadas

como se elas fossem esteios eternos

Que não precisassem de reparos. Mas me enganei…

A rima do amor precisa continuamente ser reinventada…

Mesclada com outras rimas

Para que novas rimas

Rimem no compasso dado da relação.

E se te peço perdão,

É pelas vezes que a literariedade amorosa ficou adormecida..

Quero novamente te (re)conquistar !

Reascender juras de outrora.

E que seja nessa hora de tristeza de ambos os corações…

Continuar a ser único em teu espírito.

Ser...

Me refazer de sentimentalidades veladas somente a ti.

Eu quero...

Desejo…

Eu vou te reconquistar!


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Fotografia



Fotografia: escrita da luz.

Luz natural revelada na luz subjetiva

do despertar contemplativo diante da imagem.

Natureza, arquitetura, casarões,

cheia, vazante, os navegantes...

fixados no mais perfeito instante

da captura do momento imóvel.

Imortalizados!

Olhos do fotógrafo...

Olhos que se fundem a lente

para captar aquilo que outros olhos veem,

mas não enxergam.  

A mais perfeita extração da realidade

colocada na mais perfeita imagem.

A ele digo: tu és poeta. Tua inspiração é a realidade,

tua máquina de escrever é a câmara clara,

teu papel é a imagem (re)velada,

teus leitores são teus expectadores,

e teu fruto de labuta,

 é fazer florir a simplicidade emotiva que nos faz humanos...

Fotografia: revelação química da revelação da condição humana

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Gramática Social


E falo sempre apressadamente
Por medo dos meus patrões perceber:
A minha falta de concordância verbal,
A minha falta de concordância nominal.
Marcando apenas o termo determinante,
Negando ao determinado a condição que lhe é devida.
Assim como na sintaxe
Eu também desconheço as regras do jogo da minha própria vida

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O Tempo




Que é o Tempo? O tempo passa? Não passa, diria Carlos Drummond.

Mas esquivando-se da poesia o tempo parece não ser o mesmo para todos.

Ele passa. E passa rápido. O tempo não para cantaria Cazuza.

Em certa ocasião da vida se perceberá que há mais tempo passado do que tempo ainda há ser vivido.

Se comerá mais devagar saboreando bem os alimentos...

Olhei-me defronte ao espelho e percebi que meus anos encurtaram. Ou melhor: o tempo passou e eu não vi? O tempo chegou e eu não percebi? O tempo o foi o tempo necessário de que precisei para viver? Faltou tempo?...

Tempo curto... para as muitas coisas que quis fazer.

Tempo demais... que pelo excesso de tanto tempo não aproveitei o tempo que tive para viver.

Foi-se o meu Tempo...

Chegou o meu Tempo...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Mas o que será o Amor?

Sentimento como este
Jamais vi igual.
Penetrou em meu coração,
Me dando um golpe fatal.
Perdi os sentidos por um instante,
Insano poeta menor
Nas noites de frio,
Pensando no que era aquilo,
Me pus eu tão só.
Veio como um rio
Ao correr pelo seu leito
Na leve calmaria do mar
Me pus a perguntar:
"Qual o sentido do Verbo Amar?"

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O Pôr do Sol do Tapajós



       Que Pôr do Sol deste Sol do Tapajós.
Encante de rara beleza.
Encantando o homem envolto na natureza
Num despedir-se lentamente no banzeiro do entardecer.
Paradoxo da vida e da morte nas águas negras desse Tapajós:
Vida que clareia as águas. Morte que se apaga, no horizonte dessas águas quando o sol vai definhando.
E de longe comtemplando o caboclo está...
Olhando a perder de vista,
Esse sol que se despede de mais um dia. 


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Nem tudo vale a pena.




Que me perdoe o Pessoa.
Muito embora a alma não seja pequena,
Nem tudo nessa vida vale a pena!
Os troncos que descem o mar,
Podem uma vida naufragar.
Desviar. Escolher o melhor leito, a estrada...
Nem tudo que se quer viver,
Pode-se viver.
Escolher...
O pressuposto da renúncia.
Que homem pode servir a dois senhores?
Que homem pode amar a dois amores?
É preciso saber viver.
E só se sabe viver,
Sabendo-se escolher,
Ainda que a alma não seja pequena,
Pois nem tudo nessa vida vale a pena!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

POESIA: Esse rio que mais parece mar


Tuas águas doces não deixam enganar: tu és rio e não mar.
Mas de mar resolvemos te chamar, pois és grande a se perder no próprio leito de caminhos largos e estreitos.
 Avenida fluvial, de botos, bajaras e navios, e da tal boiuna que se jura que um dia já se viu.
Imenso. Gigante na parte mais estreita,
profundo na parte mais rasa,
e mais fundo que o fundo na parte mais profunda.
Rio de encanto... rio de encante... rio de vida... rio de morte...
- Que faz panema e traça sorte –
Rio... Amazonas.