 |
| imagem da internet |
Ele era um nada por completo. Filho bastardo de
Malena, famigerada meretriz do calçadão de Copacabana na década de
oitenta.
Cresceu sem o amor materno. Uma vez que os seios da mãe não
davam conta de “amamentar” filhos e amantes ao mesmo tempo. Por isso,
tornou-se nômade na infância: visitava orfanato aqui e açula. Numa coisa
feliz: tornou-se mendigo ao invés de ladrão, ou outra coisa pior.
O
garoto com nome na infância transformou-se em adulto sem passado. Não
possuía documento algum. Nem tão pouco a dignidade de um nome. Assim,
sem nome, atendia por meros pseudônimos: Mendigo, Sujeira, Zé, Porcaria
ou Qualquer Coisa.
A luta suada pelo pão de cada dia o fez homem
trabalhador. Seu oficio era catar papelão nas proximidades da Avenida
São João. Nas horas vagas, namorava Jesuína, prostituta de meia idade
que atendia na Rua Augusta, coração de São Paulo.
O dia se fez comum
aos outros. Já a sorte não. Estava Zé Ninguém na sua labuta diária,
revirando papelão, quando de súbito seus olhos flamejaram ao ver um
bilhete de loteria meio amassado no fundo da lixeira. A ação na tardou.
Recolheu o bilhete e como todo “bom pobre” sonhou vida nova na esperança
da sorte está contida no cartão.
Pondo-o no bolso, pôs-se rumo ao
cafezinho da esquina. Parou diante da porta de entrada fitando os olhos
em direção a televisão posta sobre o balcão de atendimento. O
apresentador dizia:
_Foram sorteados, ontem à noite, os números da
sena: 05, 28, 30, 50, 14, 07.
Mendigo retirou o cartão do bolso. Fez a
leitura dos números (ler números ele sabia, ainda que pouco). Alegria
infinita! Os olhos flamejaram num instante. Acabava de ser o mais novo
ganhador da loteria. Alias, ele não, e sim o bilhete achado. Mas quem se
importaria com isso nessas alturas?
Fez-se de “bom pobre” novamente
indo ter com sua fortuna o primeiro encontro. Uma maleta cheinha. Sacou
todo o dinheiro de uma só vez. Dali um carraço esportivo, desses de
filme de ação. Isso depois de muito tentar convencer o vendedor de sua
fortuna, já que a aparência não demonstrava.
Chegou pousando de galã
em frente ao cortiço da puta-amante. A sonoridade grava da buzina do
carraço, fez Jesuína abandonar um cliente em meio aos deleites da cama.
Atraída não se sabe pelo mistério da cena ou o fascínio do carro, ela
desceu rapidamente as escadas do velho cortiço. Entrou sem avaliar o
perigo, no carro. Ao entrar, viu Jesuína Qualquer Coisa a acender um
charuto cubano com uma nota de cem reais. Partiram guiados por um
“chofer”.
Primeira parada: salão de beleza. Fizeram tudo a custa do
premio. Ele, barba, cabelo, pés e unhas. Ela, escova, chapinha,
maquiagem e massagem facial. Seguindo, compraram roupas de grife e
sapatos importados. Por fim, revitalizaram os semblantes com dentaduras
novas.
Brindaram a noite num motel luxuoso de São Paulo, suíte
presidencial, onde estiveram a salvo das interrupções diárias de
clientes de Jesuína alheios ao seu horário de descanso ou de trabalho.
O
sol da segunda feira raiou. Os amantes dispuseram-se a enfrentar a
“ressaca amorosa” com um passeio pela cidade. Lá pelas tantas, Zé
Ninguém depara-se com um dos seus. Para retribuir o gesto de amor que
por tantas vezes lhe fora prestado, dá, por entre o vidro e a janela,
uma esmola “generosa” de dez reais para o pedinte. Espanto geral! Não
pela esmola gorda. Mas por essa ser a última notinha da maleta.Voltou ao
motel para encarar a realidade: carraço, setenta mil reais. Roupas e
são de beleza, dez mil reais. Noite de amor, dez mil reais. Frustração e
mais nada. Do dia para a noite sua vida mudou. As oito da manha,
catador de papelão. Às três da tarde, homem de sorriso de ouro. Nas
horas da noite, nos prazeres de uma meretriz feita ninfeta maquiada. E
na manha da segunda feira, sem carro com a sola do pé no chão, sem
roupas com as vergonhas quase a amostra. E sem mulher só sua: verdadeiro
Zé Ninguém. ..