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Contos Amazônicos: No rastro da Cobra Grande.

Um último capítulo e a dissertação estaria pronta. Mas este lhe travou a mente e logo a escrita estagnou. Também pudera: o tema era sobre os encantos míticos das lendas amazônicas. Para ser mais preciso O Mito (lenda) da Cobra Grande.  Assim, angustiado pela inspiração do tema que não vinha, o nosso quase doutor lembrou-se de buscar novas orientações com um grande mestre na cultura (e vivência) amazônica que lecionava Cultura Amazônica naquela faculdade. A conversa entre os dois se deu ali mesmo na sala de pós-graduação. O nosso personagem amazônico era de uma aparência tipicamente cabocla e trazia amarrado nos punhos um dente de jacaré e um olho de boi (uma espécie de semente da nossa região) que segundo ele era para espantar possíveis “quebrantos”.  A conversa fluiu sem delongas. O novo orientador explicou que a dissertação ficaria bem mais pautada se o pesquisador fosse beber diretamente da fonte do objeto a ser pesquisado. Isso implicaria numa longínqua viagem de São Paulo a Óbidos, onde, segundo os antigos, disse o professor da Amazônia, está adormecida nas profundezas do Grande Rio Amazonas uma monstruosa serpente cuja cabeça esconde-se debaixo do altar na Igreja da Senhora Santana.
O postulante a doutor, a priori, não gostou muito da ideia de dar sangue a mosquitos nas brenhas de cá. Mas fazer o quê... pensou ele. O professor olhando a sua desmotivação primeira deu-lhe um único conselho: “Vá meu caro... mas tome muito cuidado com os encantes do boto e da Maria Caninana...”. Ouviu-se logo em seguida uma risada baixa e debochada...
Dois dias depois e o aeroporto Internacional de Santarém Maestro Wilson Fonseca saudava o doutorando paulistano. Ele foi direto para o trapiche e de barco dirigiu-se até o município de Óbidos. Ao chegar pensou está em Portugal tamanho a semelhança da arquitetura das casas. Percorreu todo o centro obidense até a praça do estreito. Ali mesmo começou a sua pesquisa lendo nas placas de zinco as descrições que os primeiros navegantes portugueses fizeram da antiga região dos Pauxis. Dali foi até a Casa de Cultura (antigo forte) onde em fim encontrou os primeiros relatos da Cobra Grande. Os relatos diziam que a misteriosa serpente se metamorfoseava em uma linda cabocla que seduzia até o mais valente de todos os homens. As descrições o deixaram num misto de curiosidade e novamente de deboche: como alguém poderia acreditar numa história dessas? O pensamento foi tão alto que uma mulher que também ali pesquisava o advertiu: “cuidado moço aqui tem pescador que jura que já sofreu as judiações da cobra”.
De tão compenetrado que estava nem percebeu a boca da noite chegar. De frente da praça do “Ó” fotografou algumas imagens e desceu até a orla. Era uma noite em que a lua se escondia. O banzeiro das águas turvas do amazonas batia o casco das embarcações no cás. Quando caminhava já de fronte da Serra da Escama, de longe avistou uma canoa conduzida por uma linda mulher. Neste momento um desejo inconsciente o dominou e quando retornou a sã consciência estava devidamente acomodado na canoa feita de peça única. A mulher logo perguntou quem ele era e em que ela poderia o ajudar. A resposta veio sem intermédio: “sou de São Paulo. E estou aqui para fazer uma pesquisa sobre um mito da Cobra Grande. Você conhece São Paulo. Não é? Conhece também esse mito”? “Se conheço o mito? O mito conheço muito bem. Muito bem mesmo... Mas São Paulo não. Só conheço lugar de muita água”. Respondeu a linda mulher.
La pelas tantas da conversa o quase doutor pediu para que ela o levasse até certo ponto do rio e que ao mesmo tempo fosse contando sobre a lenda. Ela o atendeu e remou até próximo ao Paturi enquanto narrava à mística aparição da cobra. Não tardou muito e desceram aos pés da Serra da Escama. Numa distração e a linda mulher desceu primeiro e enveredou-se nas brenhas da mata sem mesmo levar a poronga que alumiava a canoa.  O homem citadino desesperou-se naquela escuridão infernal. Ouvia esturros vindos da mata, galhos de árvore se quebrando, uivos desconhecidos... Sentiu até mesmo o forte piché prenúncio de mau presságio que só mesmo os antigos ribeirinhos são capazes de sentir.
Retomando o último estágio de coragem que tinha lembrou-se da minúscula lanterna que levava na bolsa da câmera fotográfica. E com esta pequena luz servindo-lhe de farol tentou remar, sem sucesso, até a orla. O mais que conseguiu foi direcionar a canoa na mesma direção do forte banzeiro. Nesse exato momento sentiu uma forte pancada na canoa. Pressentiu que algo de mistério na água o atocaiava. Logo as descrições do bote da Cobra Grande vieram-lhe a mente. O medo tomou-lhe de conta. A pilha da lanterna pifou. Por desespero ligou a câmera fotográfica e eis que nesse momento uma grande bolha de ar se fez próxima à canoa e dela emergiu uma enorme serpente com aparência de mulher. O homem ofegou a respiração. Estava diante do que tanto negava, porém muito buscava. A última ação que conseguiu fazer foi apertar o obturador da máquina disparando um intenso flash fazendo com que a maldita serpente o engoli-se num só bote e desaparecesse nas profundezas da Garganta do Amazonas.
Dias depois uma enorme anaconda era exibida no antigo mercado de peixes. E quando os pescadores cortavam-lhe para retirar o couro, um assombroso episódio ocorreu: em suas entranhas um cadáver em putrefação. Reconhecido por um dos carregadores que assistia a cena macabra. “Rapaz... esse caboco é um professor lá de São Paulo que veio pra cá estudar a lenda da Cobra Grande. Eu carreguei as malas dele do barco até o táxi. Eu ainda disse pra ele que essas coisas de mexer com essas misuras era perigoso... maldita cobra...

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OBS: veremos mais tarde na flexão dos nomes, que as desinências, também, são empregadas após o radical. Então como diferenciar o SUFIXO da DESINÊNCIA?


Resposta: O SUFIXO cria novas pala…
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