terça-feira, 8 de novembro de 2011

Acabocado

Aqui pelas beiradas do Tapajós temos um dito muito peculiar. Fala de uma analogia que compara a felicidade humana com a alegria do pinto imerso na lama. Felicidade tanta que faz do “caboco” um “acabocado” de sua própria conquista material. Descomplicando, o caso se trata do seu Viana, homem que nos últimos dias está se achando o senhor do mundo. Primeiro veio o Tênis. Um exemplar legítimo de um Mizuno. Algo não muito comum entre os seus. Com os pés revestidos de bom couro, andava numa elegância nunca vista. Evitava passar em locais enlameados. Agora está de posse de um celular de nome difícil: “ismartifone”. As horas que antes dividia entre o serviço da roça e o aconchego noturno com sua senhora, agora vive a teclar as minúsculas teclas de seu formidável aparelho. Sente-se o Senhor do Mundo. É... realmente este Viana parece pinto que belisca merda.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Formação de Palavras em Português

  • Como podemos Formar Palavras em Língua Portuguesa? Basicamente, nos utilizamos de dois processos de formação lexical: a) derivação; b) composição.
A derivação constitui-se na agregação de afixos ao radical da palavra. Quando o afixo é anteposto ao radical temos o prefixo. Já quando ele é posposto ao radical temos o sufixo. Exemplos: repor (re- (prefixo) + por); felizmente (feliz (radical) + -mente (sufixo) ). Cabe ressaltar ao aluno que a diferença entre prefixos e sufixos não é somente de ordem distribucional. Os prefixos ligam-se a verbos e adjetivos e não contribuem para mudança de classe gramatical ( ver é verbo/rever também é verbo). Fato diferente da natureza dos afixos. Estes por sua vez contribuem para mudança de classe gramatical do radical: civilizar é verbo ao passo que civil é adjetivo

OBS: veremos mais tarde na flexão dos nomes, que as desinências, também, são empregadas após o radical. Então como diferenciar o SUFIXO da DESINÊNCIA?


Resposta: O SUFIXO cria novas palavras, ao passo que as desinências apenas exprimem flexões. Veja os exemplos: aluno/alunas (alun radical a exprime o gênero feminino, s expressa número plural; fogo/fogoso ( oso caracteriza a formação de novo vocábulo/com nova significação).


Como identificar o radical de uma palavra? São dois os caminhos. O primeiro é o da SIGNIFICAÇÃO que consiste dizer que o radical agrega em sim parte da significação total do vocábulo. E o segundo caminho é o da COMUTAÇÃO. “Por esse nome se entende a substituição de uma invariante por outra, de que resulta uma nova palavra”. Entenda melhor nos exemplos:
Livr-
-inh (o)

-ã (o)

-ari (a)

-eir (o)
Perceba que na tabela, temos um mesmo radical: livr-. Uma vez comutado com os sufixos (inh(o), ã(o), ari(a), e –eir (o) derivou-se um novo vocábulo com a significação também nova.


A Derivação ainda pode ser:


PARASSINTÉTICA quando ao radical agregam-se simultaneamente prefixo + sufixo. Sendo que a eliminação de um dos afixos, resultará em uma forma inaceitável na língua. Ex: des + alma + ado. 
 
IMPORTANTE! Como saber se o vocábulo se constitui em derivado prefixal, sufixal ou parassintética? Existe uma técnica para tal indagação (infelizmente não ensinada na escola. Não na minha). Trata-se de analisar o vocábulo por meio dos Constituintes Imediatos (C.I.). Essa análise nos mostra que o “vocábulo não se constitui de uma sequência de morfemas, mas de uma superposição de blocos binários”. Tornemos a compreensão mais fácil. 
 
O vocábulo desgostoso é prefixal, sufixal ?
  1. Depreendamos o sentido semântico do termo. No exemplo temos claramente tratar-se de “cheio de desgosto”, o que gera a segmentação desgosto + oso; logo se trata de uma derivação sufixal.
  2. Tentaremos segmentar este vocábulo partindo da maior unidade significativa para a menor: des + gostoso¹ . O prefixo des aparece ligado a um adjetivo, o que é perfeitamente aceitável em nossa língua; podemos ainda segmentar da seguinte forma: gosto + oso². O sufixo oso agrega-se ao substantivo gosto, o que também é aceitável em nossa língua. Podemos ainda ter uma segunda possibilidade: desgosto + oso e des + gosto. Ocorre que nesta última forma, o prefixo des está ligado a um substantivo o que não é aceitável na língua, pois os prefixos agregam-se a verbos e adjetivos. Assim a primeira forma des + gostoso é a que esta mais de acordo com a estrutura total de nossa língua. 
REGRESSIVA: termo que se obtém mediante redução da palavra derivante. Ex: marco de marcar; debate de debater.


Quem vem antes o verbo ou o nome? Se o substantivo denotar ação, será palavra derivada, e o verbo palavra primitiva, mas se o nome denotar algum objeto ou substância, se verificará o contrário.


DERIVAÇÃO IMPRÓPRIA: quando o vocábulo passa de uma classe gramatical a outra sem alterações formais. Ex: foi um comício monstro. (substantivo adjetivado).
Outro processo de Formação de Palavras diz respeito à COMPOSIÇÃO. Por composição entende-se a reunião de dois ou mais radicais para formar um vocábulo. Podendo ser:


  1. JUSTAPOSIÇÃO: quando, na formação do vocábulo, os radicais se reúnem sem haja perda de nenhum dos dois. Ex: navio-escola, malmequer, pé-de-moleque.
  2. AGLUTINAÇÃO: nesse processo os radicais se modificam para se fundirem na criação do vocábulo. Ex: fidalgo (filho+de+algo); vinagre (vino+acre).
  3. HIBRIDISMO: na formação do vocábulo tem-se a junção de elementos de línguas diferentes. Ex: abreugrafia (abreu, origem portuguesa, e grafia, de origem grega).
  4. ABREVIAÇÃO: consiste na redução da palavra original. Ex: cine de cinema; foto de fotografia.
  5. ONOMATOPÉIA: formação de vocábulos que tentam imitar certas vozes ou ruídos. Ex: fonfom (som de buzina).

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sistema Literário, Literatura empenhada de Antonio Candido

  1. Depois da Independência o pendor se acentuou, levando a considerar a atividade literária como parte de esforço de construção do país livre, em cumprimento a um programa, bem cedo estabelecido, que visava a diferenciação e particularização dos temas e modos de exprimi-los”. (Antonio Candido, Uma Literatura empenhada)
No texto acima, de Antonio Candido, o autor se refere ao momento pelo qual passou a nossa literatura após a proclamação da Independência de nosso país. Para discorrermos acerca desse momento literário, é necessário citarmos que a formação literária em nosso país, seguiu, antes, as tendências universalistas. Tendências também metropolitanas, em que o próprio Candido afirma ser a nossa literatura “gasalho secundário” de Portugal. Ora, se a nossa nação tornava-se independente, é claro que esse espírito de libertação deveria possuir o habitante local. E seria contraditório tornar-se independente, mas ainda sim, reproduzir uma literatura de outro. Então, a partir desse momento, o nosso escritor “toma consciência de seu papel” e utiliza-se da “atividade literária como parte do esforço para a construção do país livre”. Tornou-se então necessário, inicialmente, diferenciar-se das tendências universalistas particularizando nossos temas e a maneira de exprimi-los. Ganhou destaca-se o Índio como o grande herói nacional, a poesia a partir dos elementos paisagísticos, a sublimação a pátria.

  1. O nacionalismo artístico não pode ser condenado ou louvado em abstrato, pois é fruto de condições históricas”.

Antonio Candido desenvolve essa ideia abordando os seguintes aspectos: a) para o desenvolvimento do seio literário em nosso país, contribuiu de forma principal, a vinda da Família Real Portuguesa, acompanhada por parte da Corte e do funcionalismo. Basta dizermos que essa vinda, por si só já foi sinônimo de crescimento literário e cultural. b) os demais aspectos são resultados do primeiro: implantação de bibliotecas, escolas de ensino superior, tipografias e com isso uma circulação de conhecimento em forma de livros; mais pessoas aprendendo a ler; a gênese de um intelectualismo nacional transmitindo a literatura novas tonalidades, principalmente com o sentimento nacionalista. O escritor passou a ter consciência de seu papel. c) a Independência de nosso país também somou forças a essas mudanças, no que rege principalmente a construção de uma literatura independente.

  1. Antonio Candido considera o “Indianismo” romântico uma “transfiguração do homem natural”, devido ao fato de, em linhas mais simplórias, a literatura, ou melhor, os poetas, terem poematizado o Índio em suas obras. Quero dizer com isso que, se antes o índio fora “apenas descrito, nem sempre com tolerância, e algumas vezes satirizado”, agora passara a ter papel de protagonista, elemento simbólico da pátria. Essa transfiguração é tanta e acredito que fica de maneira melhor compreendida, se ressaltarmos que o nosso índio recebeu novas características (não muito comuns a sua espécie): comportamento requintado, suprema nobreza de sentimentos, costumes ricos de belezas, tanto foram as características transfiguradas ao nosso nativo que este representou para nós o mesmo que o cavaleiro medieval representou para os portugueses.







quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Algum remédio anti-monotonia...

Viver! Dádiva dada ao homem. Vida que pela longa existência do ser (falo daquele que a brancura dos cabelos já chegou sem pedir licença) às vezes cai no abismo da mesmice: aquela queda em que nada de novo acontece, a não ser a constatação que a cada dia mais profundo o abismo se torna. Talvez pensando nisso é que dizemos com tanta ênfase: é preciso saber viver! Aproveitar o Carpe diem que essa própria vida nos oferece. Deixar um pouco a cidade e refletir a existência de existir. Coisas de quem sabe viver a vida. Por isso, que estou ai na foto vislumbrado a beleza do meu Tapajós. E acima de tudo, procurando algum remédio anti monotonia...


Análise do poema: Chão de Estrelas (Oreste Barbosa)


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No poema musicado Chão de Estrelas, o eu – lírico vivencia dois momentos: o primeiro, em que sua vida se torna um palco iluminado, dourado, graças ao convívio com sua amada. E o segundo momento diz respeito a todo o sofrimento de amar devido a partida de sua companheira. O desenrolar do poema gira em torno desses dois momentos cruciais. Os recursos literários utilizados pelo autor justificam essa ideia. Os verbos expressando ações passadas e dando a entender que essa ação ainda continua a acontecer, (minha vida era... eu vivia... andei cantando... tinha o alegre...) em oposição à ação presente: e hoje... Comprovam esses dois momentos da vida do eu - lírico.
De forma geral, as características que encontramos nesse poema nos remetem ao Romantismo. De inicio, temos um Eu - lírico em que os sentimentos são subjetivos, fazendo-se uso da função emotiva para firmar a lírica romântica. Muito comum ao nosso romantismo, temos o escapismo aí presente. Aliás, como uma forma de fuga da realidade, tem-se uma recorrência à natureza. Essa bem diferente da natureza árcade significa e revela. O sol revela a realidade ao poeta (e, hoje, quando do sol, a claridade...). Já a noite inspira-lhe ao sonho e a imaginação: mas a lua furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão... E o que dizer da mulher responsável por essa nostalgia embriagante eu – lírico em questão? Ela pode até não ter os cabelos tão negros como as asas da graúna, mas de certo se fez pomba num vôo em que somente a tristeza ficou: sinto saudade/ da mulher pomba-rola que voou. A presença de elementos da natureza nos faz crer que a vida pode ser tão feliz como o cantar dos pássaros: nosso barracão..., tinha um alegre cantar de um viveiro. Como já disse, a amada em questão pode até não ter os lábios de mel, ou os cabelos negros da cor da asa da graúna e nem a formosura de Isaura, mas tem a mesma sublimação das personagens citadas: tu pisavas nos astros distraídas... E esse devaneio do eu – lírico, em que ela caminha magistralmente sobre o reflexo das estrelas no chão da casa, é fruto das “forças inconscientes da alma: o sonho e a imaginação” que só a noite pode propiciar.



Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações

Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou

Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros, distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão