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Por que fotografamos tanto



Seja a foto do passeio do final de semana, da selfie de frente ao espelho do banheiro, dos momentos de descontração, das fotos de desafios das redes sociais, ou até mesmo, daquele acidente presenciado na esquina, tudo é registro para nossos olhos, ou melhor, nossas lentes, sejam elas de celulares ou de câmeras diversas. E embora eternizemos todos esses recortes do nosso cotidiano, não paramos para nos perguntar por que o fazemos. Por que é tão importante fazer de nossas ações uma imagem fotográfica? Por que a necessidade de “instagrarmos” o momento vivido?

Primeiramente, a fotografia na sua origem, foi tida como arte menor, ou até mesmo, desconceituada de adjetivos artísticos por grande parte dos artistas da época. Isso se dava ao fato de que ela apenas reproduzia a realidade de maneira mecânica, sendo o fotógrafo apenas um observador de todo o processo, como citou Baudelaire. Mas o próprio Baudelaire desejou ter o retrato de sua mãe como confessou em carta dirigida a ela em 1865: “eu gostaria muito de ter teu retrato (...) existe um fotógrafo excelente no Havre.” Isso mostra que eternizar a pessoa, o momento por meio de fotos não é uma prática do agora. Mas a importância que hoje se dá para a fotografia só começou a ganhar vida recentemente graças aos trabalhos de Walter Benjamim, na Alemanha e Roland Barthes, na França. É importante dizer que nessa época as famílias davam uma importância muito grande para o momento do registro. Havia o dia de ir ao fotógrafo como nos conta Brassai em Proust e a Fotografia: “ir ao fotógrafo era um processo complicado e os preparativos, quase que tão complicados quanto o condicionamento de um paciente para uma operação cirúrgica. Trajes especiais, penteados sofisticados eram debatidos em família. Não contentes com se endomingar antes de posar solenemente para a posteridade, ornamentavam-se com verdadeiras fantasias, chapéus, etc.; nunca antes usados ou que jamais seriam depois (...)”. Momento quase que semelhante vivemos na época da câmera de filme analógico em que, pela impossibilidade de se ver a foto antes da revelação, tinha-se o maior cuidado em se posar corretamente diante da máquina.

Feita essa pequena explicação histórica do modo como se concebia o registro fotográfico voltemos a nossa reflexão. Vemos que a essência do instante contínuo fotográfico permanece quase a mesma: a captura de parte de uma realidade. No entanto, o objetivo que cada “tirador” de fotos tem é que será capaz de responder por que fotografamos tanto.

Não raro, vemos fotos de fotos de pessoas que registraram um incêndio, ou acidente sem que os registros lhes servissem muito. Apenas se fizeram do momento e, click. Talvez a autoafirmação de onde estou e o que estou fazendo. Já para fotógrafos profissionais, e até mesmo alguns amadores, a fotografia é expressão de sua cultura. É levar a outros olhos, o que os olhos por trás das lentes viram. Para estes, a exemplo de Barthes, uma foto pode ser objeto de três práticas: fazer, suportar, olhar. Mesmo estes não fotografam somente como expressão do seu trabalho. Muitas vezes, saem a clicar paisagens e cotidianos urbanos.  Igualam-se, em certos momentos, aqueles que tudo fotografam e usam essas imagens para confirmar a realidade e para realçar a experiência por meio de um consumismo estético, como nos diz Susan Sontag.  

Tirar fotos é um evento em si mesmo. É um ato dotado de subjetivismo. Tanto a fotografia amadora, ou profissional constitui um recorte do momento, uma interpretação de mundo. Parafraseando Mallarmé que disse que tudo no mundo existe para terminar num livro. Hoje, não temos dúvidas de que tudo existe para terminar numa foto. Resta-nos apenas saber por que todo ato vivido queremos transformá-lo em imagem-fotográfica.

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