segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Outros Escritos: ao “alferes” que há em nós




OBS: recomenda-se a leitura do conto O Espelho, de Machado de Assis.
Gosto do muito do trecho da Escritura que diz que junto ao nosso tesouro está o nosso coração. Mas embora a essência seja parecida, o caso aqui não é bíblico, e sim Machadiano. E fala além do coração. Revela as almas que possuímos. E se você, leitor, espantou-se pela quantidade de almas que há em cada individuo transcrevo a própria resposta do casmurro: cada criatura humana trás duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
A segunda alma, nossa de cada dia, não é narcisista, porque Narciso considerou somente a si próprio a única pessoa bela merecedora de seu próprio amor e por isso, morreu. Não de amar mais do que pôde. Mas de não poder amar-se como a paixão que sentiu por si próprio pedia. Esta nossa segunda alma só vive pelo reconhecimento do outro, obséquios de terceiros, a velha necessidade de estar sempre recebendo elogios (por mais falsos que sejam), de ser visto, reconhecido, bajulado... Mas que segunda alma é esta? É a alma onde depositamos quem de fato somos, ou queremos ser, ou ainda, que queremos que os outros nos façam ser. É a velha farda que vestimos. Farda simbolizada na representação do alferes machadiano. Que não sente a necessidade da farda. Mas os obséquios que a ele foram dados em virtude da vestimenta. E quantos alferes que a farda esgotou o prazo de validade, mas que a alma, a qualquer custo, quer continuar a ser “alferes”. Todo homem sente necessidade de ser alferes?
Agora me lembrei de um pretérito recente, em que a conjugação do verbo se fez perfeito. Perfeito para o meu próprio bem. Fui alferes religioso. Seminarista para ser mais preciso. E assim como o machadiano vivi um período de obséquios: era irmão Rômulo para cá, irmão Rômulo para lá, iguarias da época, que só aos padres eram oferecidas, a mim eram dadas em fartura: uma galinha caipira ao nosso querido irmão Rômulo... Mas não tardou para que eu perdesse o posto, não só do púlpito como também dos corações de alguns. Deixe a farda, ou melhor, a túnica. O contrário também poderia ser verdadeiro. Verdade mesmo é que deixei de ser alferes para muitos, pois para mim, nunca fui. Não que eu não tenha duas almas. Não que eu não sinta a necessidade de ser alferes, e sim, porque ainda não descobri onde guardo a minha segunda alma.

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