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Breve Resumo do Mecanismo da Flexão Portuguesa

CAMARA JÚNIOR, Joaquim Mattoso. Estrutura da Língua Portuguesa. 42° ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2009. (pg, 81 a 116) 

“concordo com você em número, gênero e grau...”
  
Um dos principais erros ainda cometidos, e o que é pior cultivado nas escolas, quando se fala da flexão na língua portuguesa diz respeito à classificação do grau. Na expressão acima ocorrem dois erros: o primeiro pelo costume que se tem de se concorda com o outro, muitas vezes sem se saber por que se concorda. E o segundo que fere o processo de concordância na língua portuguesa ao se referir ao grau como um processo de flexão e não de derivação.  O que conhecemos hoje como “flexão” vem da tradução do termo alemão Biegung que quer dizer “flexão”, “curvatura”. Indica que um dado vocábulo “se dobra” a novos empregos. Em nossa língua a flexão apresenta-se por meio de sufixos ou desinências ambos somados ao radical. Nota-se que há casos em que o emprego de sufixos gera novas palavras. Estes são chamados de sufixos derivacionais. Mas mesmo antes de Cristo, há quem se ocupou do estudo da flexão. É o caso do gramático latino Varrão que classificou em dois o processo de alguns vocábulos se dobrarem ao uso de novos empregos.  A saber: derivatio voluntaria, que cria novas palavras. É o caso do processo de derivação na língua portuguesa caracterizado por pertencer ao sistema aberto; não estabelece paradigmas exaustivos; e não haver uma obrigatoriedade de concordância (se houvesse uma obrigatoriedade de uso do sufixo de superlativo, ou grau intenso, na nossa escrita diária para justificar o grau como um processo de flexão e não de derivação estaríamos incorporando a excentricidade de José Dias com seus abusivos “íssimos”). O segundo a que chamou de derivatio naturalis, para indicar modalidades especificas de uma dada palavra. Este é o caso da flexão em nossa língua que segue uma obrigatoriedade de concordância; faz parte do sistema fechado; é exaustiva. Fica bem claro que a expressão de grau não pertence ao processo de flexão em nossa língua (pelos aspectos já citados). Se então o grau não pertence ao processo de flexão, resta-nos a análise do gênero e o número.


Nos nomes temos a flexão de gênero e número. Quando este processo flexional é estudado nas gramáticas escolares, vê-se mais um pecado ao perceber que a explicação dada ao processo de flexão do gênero reduz-se simplesmente a oposição macho X fêmea. Pois como aplicar o mesmo conceito a palavras que não expressão “sexo”? O gênero condiciona uma oposição entre uma forma masculina e outra feminina (são necessariamente identificados por sexo). Essa oposição realiza-se por meio da desinência  -a (átono final) para a marca do feminino. A flexão de número faz a oposição entre singular e plural. Essa flexão é marcada pela adição da desinência  -s  na última silaba do termo em contraste (lobo/lobos). Se o feminino e a forma no plural são identificadas pela presença de suas respectivas marcas. O posto ocorre nas formas masculinas e nas formas no singular. Ambas representadas por ausências de marcas (morfema gramatical zero {Ǿ}. Muitos pronomes também têm essas mesmas flexões. Só que nesses três noções gramaticais lhe são próprias. É o que os distingue dos nomes, a saber: a) somente os pronomes representam a noção de pessoa gramatical. Vale dizer que essa representação não se dá por meio de flexão, mas por meio de vocábulos distintos; b) vários pronomes existem como gênero neutro em função substantiva, referindo-se a coisas inanimadas; c) uma categoria de casos (bem diferente do latim).


Já nos verbos, enquanto um estudo flexional, temos duas noções que se completam para flexionar o vocábulo verbal. 1) o tempo que indica o momento da ação verbal. E a este ligado a pessoa gramatical do sujeito; 2) sufixo flexional   pode indicar o “modo” (indicativo, subjuntivo, imperativo) incluindo ai, também, o tempo da aça; e a desinência de NP (a pessoa do sujeito e seu estado de singular ou plural). Quando ao radical do verbo soma-se a vogal temática temos ai o tema. Nos verbos portugueses temos três conjugações representadas pelos temas terminados em: -a (1° conjugação), -e (2° conjugação), -i (3° conjugação).


Nos nomes temos os temas terminados em  -a, -o /u/ átono final e  -e /i/ átono final. Assim não se confunde a desinência de feminino  -a, que aparece nos temas em    -o (lobo/loba) e a vogal temática em  -a que não é marca de gênero.





O Nome e suas Flexões


Em língua portuguesa os nomes se dividem, do ponto de vista funcional, em substantivos e adjetivos. Quanto a sua flexão, como já citei anteriormente, ainda ocorre grave erro na sua significação semântica apresentada por nossas gramáticas, principalmente nas escolas. Advém, a priori, do fato de associar o gênero ao sexo dos seres. No entanto, como sabemos, há nomes que representam uma expressão no feminino, sem necessariamente ligar-se ao “sexo do ser”.  Assim, teremos termos equivalentes tanto para o masculino como para o feminino. O que vai determinar o gênero é o determinante que acompanha o nome. Em geral se pode afirmar, do ponto de vista semântico, que o masculino é a forma geral, não marcada, enquanto que o feminino indica uma especialização qualquer.


Outra incoerência diz respeito a falta de se fazer uma distinção entre flexão de gênero e certos processos lexicais ou sintáticos de indicar o sexo. É o caso geralmente de homem e mulher, em que o nome mulher é ensinado como sendo a forma feminina de homem. Bem sabemos o que de fato existe é uma aproximação semântica de tais termos em que homem é privativamente masculino e mulher privativamente feminino.


Flexiona-se um nome para o feminino fazendo o acréscimo do sufixo flexional   -a (/a/ átono final) com a supressão da vogal temática, quando existente no singular: autor/autora.


Da descrição do gênero nominal têm-se o seguinte: a) nomes substantivos de gênero único; ex: (a) rosa, (a) flor... b) nomes de dois gêneros sem flexão; ex: (o,a) artista... c) nomes de substantivos com dois gêneros, com uma flexão redundante; ex: (o) lobo, (a) loba; (o) mestre, (a) mestra.


Já a flexão de número dos nomes parece ser um estudo menos árduo que o de gênero. Já citado a maneira pela qual se obtêm o plural em nossa língua passemos a ideia semântica que ele pode expressar. Temos os “coletivos” em que a forma no singular expressa uma ideia de plural. Outros nomes como núpcias expressão a ideia de um encadeamento de fatos devendo o determinante ir sempre para o plural. Outra ideia semântica é que termos como trevas, céus, ares indicam amplitude e não mais de um.





A significação geral das noções gramaticais do verbo


Vimos anteriormente que a estrutura do verbo é composta por dois grandes morfemas flexionais: de tempo/modo; e número/pessoa. Ao primeiro daremos maior ênfase no momento.


Nas formas verbais em língua portuguesa temos: indicativo, subjuntivo (incluindo o imperativo). O modo indicativo apresenta uma certeza ao momento de fala da pessoa verbal. Já o modo subjuntivo enfatiza uma ação incerta. No aspecto sintático subordina-se a uma forma que expressa uma possibilidade de realização da ação verbal.


A noção gramatical de tempo aparece, no seu desdobramento plano no modo indicativo. No uso coloquial temos, distintos, presente e pretérito (passado). No entanto, o pretérito se divide em três formas: imperfeito, perfeito e mais que perfeito. Mas no campo da significação podemos ter duas divisões: a) dentro da noção de tempo: temos um passado anterior a outro; b) dentro da noção de aspecto: temos um passado “inconcluso” não totalmente “passado”. E outro que é concluso; acabado. Desses o pretérito mais que perfeito é pouco utilizado no uso coloquial sendo substituído por dos outros dois. O pretérito imperfeito tem o emprego metafórico, pois indica modalmente a irrealidade.  


O modo do subjuntivo tem os três tempos de presente, pretérito e futuro. Temos inicialmente uma oposição entre o presente e o pretérito, sendo este mais marcado que aquele. O quadro a seguir representa bem o emprego dos tempos no modo subjuntivo:


1)      Orações não condicionais: a) pretérito; b) presente;


2)      Orações condicionais: a) pretérito; b) futuro;


O imperativo não é mais que um subjuntivo sem o elo da subordinação sintática. O infinitivo é a forma mais indefinida do verbo. Tanto que costuma ser chamado como o nome do verbo.





A flexão verbal portuguesa – O padrão geral


O verbo é em português, o vocábulo flexional, por excelência, dada a complexidade de suas flexões. Já dito anteriormente, seus sufixos flexionais ou desinências são de dois modos: sufixo modo-temporal (SMT) e sufixo número-pessoal (SNP). Assim temos:


 T (R + VT) + SF (SMT + SNP)


Há seis sufixos números-pessoais, para indicarem como sujeito o falante: P1, P2, P3, P4, P5, P6.

Comentários

  1. Valeu pela postagem o mecanismo da flexão portuguesa, pois estou estudando esse assunto para apresentar um seminário, e me ajudou bastante.

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OBS: veremos mais tarde na flexão dos nomes, que as desinências, também, são empregadas após o radical. Então como diferenciar o SUFIXO da DESINÊNCIA?


Resposta: O SUFIXO cria novas pala…
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