
“Mudam-se
os tempos... muda-se o ser”. Hoje, o sinônimo de existência vai além da
condição física real. Ela se confunde com a vida virtual: “Penso. Faço uma
selfie. Posto no face, logo existo”. Resume o significado de existência na era
das redes sociais. A famosa selfie tirada, quase sempre de frente ao espelho do
banheiro, é antes de tudo o nosso momento narcisista, embora não completo,
pois, no mundo da hiperexposição não basta vermos nosso rosto pelo espelho da
fotografia do celular, é preciso que compartilhemos para que o olhar do outro
lance sobre nós o julgo da subjetividade expressa em curtidas e comentários.
Diferentemente
de Narciso, não mais conseguimos contemplarmo-nos sozinhos. É quase que
inconcebível guardar somente para si aquele autorretrato. Queremos torná-lo público.
Queremos despertar no outro com fotos de nós mesmos a mesma sensação que
Narciso sentiu por si mesmo. Tanto que, muitos aplicam filtros e mais filtros
em suas fotos que chegam parecerem bonecos de cera opacos e sem vida. Como se o
auto-fotogafado, descontente da leitura que a câmera faz dele, introduz na
imagem um filtro no intuito de agradar o expectador, e esse observador faz nova
leitura, pois não vê nem a pessoa real, nem a representação da captura da
câmara escura, e sim uma representação da alma daquele que se auto-fotografou:
como eu quero ser visto.
Por
fim, somos sujeitos que necessitamos dessa revelação a qual o espelho é capaz
de nos dar. Seja o espelho da selfie, das redes sociais, da própria fotografia quando
captada e exposta ao outro, seja pela nossa condição de alferes machadiano,
enfim, parece que depositamos no autorretrato a mesma essência de quando nos
embelezávamos e ficávamos muito contentes quando o elogio vinha. Nosso espelho
é outro. Nosso questionamento é subjetivo e vai muito além de sermos ameaçados
pela beleza física do outro. Somos os novos narcisos a contemplarmo-nos com a
nossa própria imagem refletida na palma da mão.
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