sábado, 31 de julho de 2010

O RELÓGIO



O relógio dita o compasso da vida num vai e vêm silencioso: Aliás, o silencio só é quebrado nas noites solitárias em que me arrepia um tic... tac... assombroso: anúncio da proximidade do fim do sopro divino que entra e sai de minhas narinas.
Sou escravo dessa representação do “kronos”. Sou a própria areia da ampulheta vendo passar a vida num piscar de segundos. Sou o coelho sempre atrasado no mundo encantado da menina Alice.
Ele me olha e lê a angústia presente em meus olhos. O medo de que seus ponteiros sejam mais ágeis, espertos e malandros que a minha inteligência, antecede a brancura natural de meus cabelos.
No intervalo do tic... para o tac... a existência de um abismo abstrato: um tic... de vida; um tac... de morte. Morte e vida num só segundo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

MEU PRIMEIRO AMIGO



Meu grande amigo...
O ano é o de 1998. O cenário a cidade de Santarém. O motivo: um trabalho para a escola. Talvez, se não fosse isso, eu jamais o teria conhecido.
Ele era mais novo que eu. Devia ter uns dez a nove anos de idade. O que não o tornava inexperiente. E por falar em experiência, nesse ponto, ele estava muito acima de mim. Enquanto eu conhecia apenas a minha cidade, ele conhecia o mundo. Já havia singrado até os sete mares. E eu agradeço toda essa sua experiência, visto que ela me foi passada por ele.
Conhecemos-nos numa linda manhã de outono. Meu pai foi quem nos intercedeu ao primeiro diálogo. Antes dele eu apenas me lembrava de um velho amigo o qual era careca e morava numa cidade onde todos os meninos também eram carecas. Essa cidade chamava-se a “A Serra dos Meninos Carecas”.
O meu novo amigo tinha um nome forte posto por seu pai. “Cérbero o Navio do Inferno” este era o nome do meu novo amigo e primeiro de verdade.
Dalí para frente não tive muitos outros. Contentei-me apenas com quatro ou cinco. Passei a ter o mesmo pensamento de Nelson Rodrigues.
Hoje sou um jovem que rejeita qualquer amizade. Fico apenas com aquelas que realmente me dão um sentido na vida. As que são mais baratas, essas me conquistam o coração. As que são mais caras me afugentam do diálogo. Eu prefiro o livro mais barato e mais cheio de conteúdo para a minha vida.

Rômulo José, quando do meu primeiro livro.

Adoração ao Capitalismo




Creio no Capitalismo todo poderoso
Criador das riquezas humanas
E no Dólar seu único filho Nosso Senhor
Que foi concebido pelo poder do Espírito Econômico
Nasceu de uma Virgem americana
Padeceu o pobre socialismo humanitário.
Foi exaltado, venerado e glorificado.
Adentrou a mansão dos famosos
(res) Suscita sempre todos os dias.
Subiu nas bolsas de valores
Está sentado a direita de seu criador
De onde há de vir selecionar os mais fortes.
Creio nesse espírito único e santo
No banquete excludente da burguesia
E na sua hegemonia eterna.

AMÉM.

sábado, 12 de junho de 2010

REFLEXOES SOBRE O AMOR


Mas o que será o amor?
 Ora... O amor é um fogo que arde sem se ver/ é ferida que dói e não se sente/ é um contentamento descontente/ é dor que desatina sem doer... É um não querer mais que bem querer/ é nunca contentar-se de contente. Mas antes de tudo, o amor é Divino. Pois poderia o homem ter fé tamanha, ao ponto de transpor montanhas, mas se não tivesse amor... nada seria. O amor é emanado de Deus. No entanto, nem todos os homens deixam-se seduzir por essa dádiva afetiva. Amar aprende-se! Eu amo, tu amas, nós amamos... E o melhor exemplo é o do próprio Cristo: “amai-vos uns aos outros, como eu vos tenho amado”.  
E nos diversos sinônimos que se tem sobre o verbo amar, podemos aqui citar: o amor que se tem pelo animal de estimação: gato ou cachorro. O amor que se tem pelas coisas materiais; o amor que se tem pelo time de futebol, pelo cantor preferido, pela atriz da novela das nove etc. E de todos os amores possíveis que se possa ter ou sentir está o amor que une homem e mulher numa só estrada. Uma verdadeira prova de amor maior, pois há uma doação pela vida do outro: ambos compartilham a alegria e derramam-se em prantos na tristeza. Já não existe o Eu e nem o Tu. Vida e morte numa só alma!
E tudo é belo e tudo é mágico. Até as estrelas os enamorados são capazes de ouvir. “Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas”. Assim chegamos a uma das fases mais bela de um casal: o namoro; enamorar-se. Coisa que nunca pode acabar: a vida é um eterno namoro. Aliás, “o amor é a poesia dos sentidos. Quando existe, existe para todo o sempre e aumenta cada vez mais”. E amar é sempre ter a certeza de está na presença de Deus. Este é amor e quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele.
Deve-se amar desde o momento em que se aprende até o último dia de vida. E aqui um alerta: os velhos também amam. Parece que para esses o único amor lhes permitido é o carinho que dão aos netos. Quando o vovô ainda mantém acessa a chama da paixão a primeira coisa que se diz é que o pobre está caduco. Para se amar não tem idade. Não tem modo. Aliás, “o modo pouco importa; o essencial é que saiba amar”. E agora...? E afinal... O que vem ser o amor?  Só mesmo declamando aqueles versos de Vinícius de Morais:
Soneto de Amor Total
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
          Hei de morrer de amar mais do que pude.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Resumo do Livro: A Poesia Lírica, Salete de Almeida Cara

No momento em que o homem grego, vendo sua vida cada vez mais submetida às leis da “polis”, resolve criar um modo de expressar-se de forma individual, nasce à poesia lírica. Era uma poesia para ser cantada com acompanhamento musical, geralmente a lira. As mais importantes foram: a poesia mélica (de “melodia”), a poesia de coro e as elegias que glorificavam deuses e vencedores de jogos, assemelhando-se assim a poesia épica.
É na própria Grécia, com Platão e Aristóteles, que surgem os primeiros estudos sobre a poesia lírica ou mais precisamente sobre a poesia em geral. Para Platão, a poesia soma-se aos elementos do mundo vicário da imitação, pois nada mais é que uma imitação da imitação. No livro a República, Platão é o primeiro a tratar sobre uma teoria dos gêneros literários em que atribui à poesia função menor. Segundo a conceituação de poesia apresentada pela teoria dos gêneros, a poesia lírica seria o poema de primeira pessoa ou primeira voz. Já para Aristóteles, não somente a poesia como toda a arte e literatura definem-se como “artes miméticas” da realidade. Na sua Poética, que trata justamente dos meios e modos pelos quais essas artes são imitadas, além do modo de composição de cada uma, no entanto, Aristóteles não faz referências à poesia lírica. As ideias de Platão e Aristóteles assemelham-se no fato da dicotomia apresentada entre o discurso lógico da razão e o discurso alógico da poesia.
Mas a figura mais expressiva da poesia lírica grega foi à poetisa Safo. Sua poesia representava bem os elementos intrínsecos apresentados em primeira pessoa ou primeira voz. Era uma poesia de mulher para mulher. Deixando de lado os feitos heroicos para cantar os desfrutes amorosos de forma intensa.
Florescida na Grécia, a poesia lírica se expandiu ao mundo romano exercendo influencia sobre este. Só que em Roma, houve uma separação muito maior da que aconteceu na Grécia entre a poesia lírica e às instituições políticas e sociais e o emprego das palavras na construção de um mundo imaginário.
A construção desse gênero de poesia obedecia a leis próprias, intrínsecas a própria composição. Tais como ritmo dos versos, intensidade das silabas, versificação silábica. Tais aspectos quase que engessaram a forma livre e natural de acentos e pausas. Será a poesia provençal a dizer que a linguagem poética não pode amarrar-se a normas e preceitos formais ou gramaticais. No entanto, essa linguagem dos poetas provençais foi regulada pelos preceitos morais cristãs da época. Daí dizer que essa poesia lírica caracterizou-se como uma idealização amorosa. Idealização amorosa que se vê nas cantigas de amor de Portugal. Outra cantiga, descendente, foi a de amigo, em que o poeta assumia a personalidade feminina para cantar as saudades desta pelo amado.
Em cada momento histórico, a poesia lírica passou por novas conceituações. Eliot exemplifica o significado estabelecido pelo Oxford Dictionary, onde se lê, em lírico: “atualmente o poema que se dá a poemas curtos, geralmente divididos em estrofes, exprimindo diretamente os sentimentos e pensamentos do próprio poeta”. Edgar Allan Poe falou em brevidade; Coleridge em relações harmoniosas, métrica coerente; Wordsworth em espontaneidade; Hegel em subjetividade, emoção pessoal.
No Renascimento se dará uma nova roupagem ao conceito da expressão lírica até então estudada. Com o advento da imprensa aquela poesia oriunda da “polis”, composta para ser cantada ou acompanhada por música, passa agora para o papel para ser lida, sem acompanhamento musical. A Poética de Aristóteles ganha uma nova leitura tornando-se base para a construção de uma teoria poética, a teoria neoclássica. Desta vez a mimésis aristotélica é vista como a imitação das ações humanas. Os fenômenos artísticos passam a ter uma compreensão mais rígida, pois se acreditou que Aristóteles tivesse uma visão estética clássica bastante normativa e preceptiva. É justamente essa leitura da Poética aristotélica a responsável por nortear as leis e regras do sistema critico neoclássico. O que pendurou até a fase romântica.
Na lírica romântica o artista no seio de uma sociedade em que a tecnologia, a indústria e a ciência estão emergindo, vê-se inutilizado. O cenário agora é favorável ao utilitarismo que fascina o homem. Nisso o poeta, que até pouco tempo tinha certa áurea divina, busca manter vivo esse mito literário de sua própria figura. Para tanto, foge para dentro de si mesmo percorrendo o caminho da evasão romântica como forma de proteção. Mergulhado em um subjetivismo emocional, o poeta correu o risco de apenas transferir para o papel essa emotividade unicamente pessoal definida apenas pelo uso da função emotiva da linguagem de forma “seca”. Mas o poeta romântico não se deixou cair nessa crise de valores. Usufruiu das novidades da modernidade inserindo o contexto social nas composições como forma de resgate da linguagem criativa.
Mas o que marca mesmo para a poesia lírica nesse momento, é a “concepção da poesia como linguagem de sons, tons e metro: que embora moderna, acaba sendo uma recuperação da unidade original de poesia e música”. Muitos teóricos contribuíram para essa idéia. Segundo Novalis a poesia lírica seria uma expressão do poético; Goethe discutiu o enquadramento da poesia na teoria dos gêneros e não aprovava que fossem misturados. Ao contrário de Brunetière em que sua visão literária lembra muito a questão clássica dos gêneros. Já Benedeto Croce, colocava em primeiro plano a individualidade artística de cada obra em oposição aos modelos classificáveis de maneira geral.
Sofrendo o julgamento critico das diversas épocas, a poesia lírica chega enfim ao mundo moderno. E a sua chegada lembra em muito a sua origem la do mundo grego. A cidade moderna é o palco da vez. Agora o homem se relaciona com o mundo objetivo pela relatividade do mergulho na subjetividade. Essa relação é bem diferente do poeta romântico que acredita na poesia como expressão do “eu”. O poeta moderno sabe que qualquer recorte da realidade nada mais é que apenas linguagem. Isso quer dizer que, faz-se apenas uma “tradução parcial” da realidade.
O poeta moderno tendo os olhos agora voltados para a grande cidade assume novo papel: o de recortar cenas de seu cotidiano; daquilo que se apresenta diante de seus olhos. Usa de uma linguagem fragmentada para dialogar com a tradição. Ele caminha em direção as possibilidades internas da linguagem, abanando regras e modelos.
Uma nova discussão que se assenta, além do novo papel do poeta, é a conceituação que se dá ao sujeito lírico. Este não mais se define apenas como o autor que compõe a obra. O sujeito lírico se manifesta na própria obra por meio da melodia, do canto, da sintaxe, do ritmo. “Esse é o elemento que une todas as escolhas da linguagem de que é feito um texto.”
Tendo a poesia lírica nascida na “polis” e percorrido toda essa odisséia de conceituações, caberia na modernidade a pergunta: afinal, o que é poesia lírica? Responder pela ótica da teoria dos gêneros implicaria numa resposta tendo em vista a estrutura formal em si. Mas Emil Staiger propõe que deva existir uma relação na composição de qualquer texto: sua construção e seu sentido. Assim a poesia lírica pode ser vista de duas maneiras: a) usado como substantivo: estaria enquadrada na teoria clássica dos gêneros sendo uma poesia de não muito longa, sem personagens claramente delineados, onde ritmo e melodia servem para expressar a alma de um “eu”. b) como adjetivos, “significa uma qualidade que decorre de traços estilísticos que podem ou não estar presente em um texto”. Isso para dizer que a relação gira entre o “texto como construção de linguagem mais a situação de leitura que suscita.”
E os gêneros literários como ficam?
Desde cedo se percebeu que os modelos classificatórios das produções literárias não levavam em conta a originalidade de cada produção. A produção literária moderna com suas muitas pesquisas está a todo tempo desfazendo esses conceitos clássicos homogêneos de esquemas de classificação geral. Neste sentido, o conceito de “gêneros literários” ganhou uma flexibilidade antes não permitida. O estudioso literário moderno passou a analisar cada texto como uma unidade particular de linguagem. Assim pôde-se até dizer que, tanto a lírica como os demais gêneros, já não podiam mais ser compreendidos sob uma ótica normativa inflexível, pois o papel do leitor como aquele que dá sentido ao texto passou a ser considerado.